A cigarra e a formiga

(Uma versão realista)

Despreocupada, a cigarra

passou o verão a cantar

em concertos, festivais,

em festas e arraiais.

Puxava-lhe o pé para a farra,

nem pensava em trabalhar.

Ao contrário, a formiguinha,

Cumpridora e diligente,

sempre a correr pressurosa

armazenava, zelosa,

para o frio que aí vinha.

Um insecto previdente.

Quando o Inverno chegou

e se calou a cantiga,

a cigarra esfomeada,

a tremer, envergonhada,

tiritando se arrastou

até casa da formiga.

«Amiga, tem dó de mim…

sei que procedi mal

desperdiçando o verão;

dá-me já a côdea de pão,

porque, assim como assim,

poupas a lição de moral…»

Mas as coisas desta vez

não se passaram assim.

É que a pobre da formiga

tinha vazia a barriga

E disse sem altivez:

«Estou pobre, ai de mim…»

«Devia eu dizer agora,

Para promover a poupança,

de acordo com Lafontaine,

e compondo um ar solene:

‘cantavas a toda a hora?

Chegou a hora da dança!’

Mas não é essa moral

desta história de tarados:

tudo aquilo que ganhei

foi nos bancos que apliquei…

As coisas correram mal,

Agitaram-se os mercados,

o banco foi à falência,

eu fiquei sem um tostão.

Como vês, ó cara amiga,

a previdente formiga

já declarou insolvência

mas o banqueiro é que não».

16/5/2016

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