AGORA VAI TUDO A EITO.

Acabaram-se os paninhos quentes.

O PPE, sob a férula de Merkel, decidiu que esta história do Guterres estava a ir longe de mais. Transparência? Sim, claro, mas sem exageros…

Por isso, o PPE decidiu que as crianças já tinham brincado às democracias o suficiente e que, agora, é a hora de os adultos tratarem do assunto.

Sai Georgieva…

Um pouco de História: a forma da escolha do SG das NU não está muito explícita nos textos que regulam a Organização, designadamente na Carta, que apenas indica que «o Secretário-Geral é nomeado pela Assembleia Geral sob recomendação do Conselho de Segurança» (artigo 97). Assim, ao longo das oito escolhas precedentes, foram-se consolidando alguns procedimentos e regras não-escritas ( entre as quais a da «rotação geográfica») mas que foram fazendo da intervenção da Asembleia Geral (AG) uma ficção, sendo certo que o Conselho de Segurança (CS) é quem tem, verdadeiramente o poder de indicar o SG; e, dentro do CS, os cinco membros permanentes (EUA, Rússia, RU, China e França), os quais gozam do poder de veto.

As NU, é sabido, vêm-se arrastando numa crise progressiva de natureza múltipla (crise financeira, de credibilidade, de poder efectivo, etc.) cujas causas e soluções não são susceptíveis de serem aqui explicadas.

Basta dizer que, nos últimos anos, se começou a falar e a tomar medidas para que, na escolha do(a) sucessor(a) de Ban Ki-Moon fosse introduzida uma salvífica «transparência» que atenuasse o descrédito com que a ONU é universalmente olhada.

Daí a publicidade inédita às audições dos candidatos e aos resultados das «straw polls», votações informais e não-vinculativas que se destinam apenas a «medir» tendências e preferência e a «concentrar» votos. Estas «votações» de que Guterres saiu sempre em primeiro lugar não são, volto a sublinhá-lo, minimamente vinculativas e nada garante que, na próxima votação, ele não fique em último.

Outro aspecto que seria bom ter em conta, é o da «rotação geográfica». Com o simplismo impenitente da esmagadora maioria da comunicação social e do kumentariado e o «futebolismo» que preside às suas «análises», começou a aparecer uma certa ideia de que esse critério, entre muitos outros, utilizado na escolha do SG está ferido de algum pecado original e é intrinsecamente perverso. Nada mais longe da verdade; trata-se de uma prática em uso em quase todas as organizações internacionais, da UE à CPLP, e destina-se, precisamente, a corrigir concentração excessiva de poders e privilégios.

O que acontece é que, agora, a transparência foi mandada às malvas.

Os conflitos geopolíticos, de que a situação na Síria e a «luta contra o terrorismo» são o epítome, as intrigas inter-balcânicas baseadas na preferência por um SG da Europa. de Leste e até o proclamado desejo de elevar uma mulher ao cargo em disputa, desencadearam uma campanha de bastidores muito pouco transparente, com truques, campanhas de desinformação, «hacking» de computadores e mensagens electónicas, contas falsas de Twitter e por aí adiante.

É preciso ver que o próximo SG pode (e deverá) ser uma peça-chave na tão reclamada e cada vez mais inadiável reforma das NU e, dentro desta, na reconfiguração do CS e das suas regras.

Daí este «tour de force» da Comissária europeia, membro do PPE e queridinha da ala financista da UE, com Merkel à cabeça e, seguros pela trela, os seus «poodles» habituais, de Junker a Durão Barroso (que, forçado ou não, participou na campanha da senhora, servindo-lhe de introdutor no Grupo de Biedelberg), passando por toda a direita europeia. Há mesmo um lobbysta português, um tal Mário David, militante do PSD e «homem de mão» de Barroso, contratado, segundo parece, para dfundir a Boa Palavra a favor da senhora.

De resto, nem o nome nem o seu aparecimento «in extremis» são uma surpresa: falava-se dela há já dois anos, pelo menos, e as hipöteses de avançar agora estavam a tornar-se incontornáveis.

E a candidatura Guterres, no meio de tudo isto?

A persistência de «dois votos de desencrajamento» pode esconder um veto de um (ou dois) dos «cinco».

Por outro lado, a posição da Rússia adquire, agora, ainda mais relevância para o candidato português. A Rússia é o principal arauto da escolha de um candidato da Europa de Leste, mas a sua candidata era a búlgara agora defenestrada, Bukova. Com a desfeita com que o governo búlgaro agora lhe acena, é possível que Moscovo vete a Kristalina neo-candidata.

Dos «cinco», Guterres parece só ter assegurado o voto da França, e mesmo assim…

Em resumo: o «destino» de Guterres já não depende dele pröprio. Ele provou à saciedade ser o mais bem preparado dos candidatos, que passeou por Nova Iorque «o seu humour, o seu carisma e a sua maestria de exposição», como escreveu Julian Borger, o editor de política internacional do Guardian.

Veremos.

28/9/16

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.