AS FRAUDES HISTÓRICAS, A VIGARICE INTELECTUAL E O DR. JÚDICE

Verifiquei, com um misto de gozo e de incredulidade, que o Dr. José Miguel Júdice tem, também, o olímpico estatuto de kumentadeiro televisivo.

A incredulidade não se deve a quaisquer dúvidas sobre as inegáveis capacidades do conhecido advogado para (mais um…) ensinar às massas ignaras o que e como deve pensar; o que a justifica (a incredulidade) é a vaidade que lhe subjaz, porque não acredito que sejam os magros euros da espórtula nem o impulso cívico de dar lições de democracia que o motivam.

O gozo, traduz o facto de ver tão suculentamente demonstrada a falta de memória colectiva dos portugueses.

Lembrei-me, então, deste texto que escrevinhei em 2014, preparava-se a Pátria para celebrar o aniversário do 25 de Abril:

«OS DONOS DA DEMOCRACIA

O DN, sempre cheio de ideias luminosas, decidiu assinalar os 40 anos da Revolução, perguntanddo a algumas «personalidades» onde estavam no 25 de Abril.

O inquérito começou ontem com um depoimento de Baptista Bastos, o «inventor» da célebre pergunta. Muito bem.

Hoje, o pasquim resolveu, talvez para contrabalançar, fazer a mesma pergunta a José Miguel Júdice.

Com alguma curiosidade de saber como responderia alguém do «outro lado», comecei a ler.

O espanto juntou-se à indignação e, do conúbio, nasceu a repugnância.

Passei a «saber» que, naquele glorioso dia, pelas 8 da manhã, o impoluto Júdice, acompanhado pelo fascista confesso Vieira de Andrade, abriu uma garrafa de Porto Lacrima Christi e brindou ao fim do regime!

Foi, certamente, durante aquelas breves horas durante as quais houve alguma incerteza sobre a natureza das movimentações militares e alguns (entre os quais, porventura, o Dr. Júdice) julgaram estar a ter lugar um golpe da extrema-direita comandado pelo general Kaulza.

Só pode ser isso, porque o Dr. Júdice era um notório líder nacionalista revolucionário (sic) como o bando de auxiliares da PIDE a que pertencia gostava de se proclamar, em perfeito delírio hitleriano.

Cultores da matraca e do cassetete, estipendiados pela PIDE, pela Legião Portuguesa e pela sua Brigada Automóvel, seriam ridículos se, sob a atitude apalhaçada, não se vislumbrasse o vesgo ódio à Liberdade e à Democracia.

O actualmente democrata era, desde 1969, «uma referência central da facção nacionalista-revolucionária da Academia», como lhe chama Riccardo Marchi, um italiano especializado na história da direita radical portuguesa.

É o mesmo Marchi que cita um relatório da PIDE de 20 de Janeiro de 1972 que realça «que na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra as direitas contam com 6 professores catedráticos, 2 professores auxiliares e vários assistentes. Estes últimos, alguns dos quais líderes da área radical, são José Luís da Cruz Vilaça, Francisco Lucas Pires, Diogo José Paredes Leite de Campos, José Carlos Vieira de Andrade, José Miguel de Alarcão Júdice, Rui Manuel Gens de Moura Ramos.» Lá estão os dois desgustadores de Lacrima Christi

Júdice, sobre ser matraqueio e activista, via-se também como doutrinador e divulgador da literatura fascista e nazi. Colaborava nas várias folhas e nos panfletos financiados pela PIDE e pelo SNI, prefaciou uma coletânea de textos falangistas e criou e dirigiu a Cidadela, uma cooperativa livreira e editora que era parte da constelação de micro-organizações e gropúsculos em que a dezena e meia de facholas se desdobrava.

Portanto, o brinde de 74 ou é mentira ou era fruto do engano.

É que a espectacular conversão à democracia nem sequer se deu imediatamente depois do 25 de Abril: o impoluto paladino da Justiça e da Moral ainda teve tempo de fundar o Partido do Progresso, o MDLP e o ELP e, muito provavelmente, «fazer a folha a uns comunas» ou incendiar umas sedes do PCP e do MDP/CDE.

Para ilustração dos incréus, leia-se a edificante entrevista que proporcionou a uma outra múmia da direita, a apoucadinha Maria João Avilez, disponível em http://www.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=ejjudice.

Preparem-se: durante os próximos dois meses, a rataria vai pôr os bigodes de fora.

Vamos ter girândolas de mentiras históricas, feéricas fraudes intelectuais, heróis democráticos leofilizados e, no dia 25 de Abril, uma apoteose de mediocridade em que não terão lugar nem democratas, nem Capitães de Abril, nem antifascistas.

Será o dia dos heróis deste reino cadaveroso, o dia do Relvas, do Portas e dos restantes Júdices.

Ainda estão vivos e activos muitos dos contemporâneos que testemunharam as criminosas tropelias dos fascistas coimbrões desse tempo. Era bom que usassem a memória.

17/3/2014"

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