COMEMOS O PÁSSARO DODÓ.

Há alguns anos (muitos…), integrei com outros colegas uma delegação da então CEE às Ilhas Maurícias.

Havia representações de todos os Estados Membros, bem como da Comissão e do Secretariado do Conselho, pelo que a Comissão optou por fretar um avião que transportasse toda aquela gente.

Portugal não tinha qualquer acordo de isenção de vistos com as Maurícias mas os Serviços da Comissão garantiram-nos que o mesmo se passava com outros Estados Membros e que não haveria problema algum, os vistos seriam dados à chegada, no aeroporto.

Um diligente funcionário bruxelense recolheu, portanto, à chegada, as muitas dezenas de passaportes que entregou, em pacote, aos funcionários da polícia de fronteiras mauriciana.

Em pouco tempo, começaram a ser chamados, um a um mas sequencialmente agrupados por nacionalidade, os delegados da CEE, a quem eram devolvidos, devidamente regularizados, os respectivos passaportes.

À medida que a maioria dos restantes grupos eram “despachados” e se sentavam confortavelmente nos autocarros que os conduziriam aos hotéis, começou a instalar-se entre os portugueses alguma, digamos, estranheza, cuja justificação se acentuou quando verificámos que, de facto, só restávamos nós. Ficámos com a reforçada convicção de que isso se devia à falta de vistos quando, em lugar de ser chamados nome a nome, como acontecera com os grupos anteriores, fomos colectivamente introduzidos numa sala, onde imperava um bigodudo em uniforme caqui, de cenho carregado, atrás de quem se agrupavam o que me pareceu metade da guarnição da polícia mauriciana, todos mirando-nos com um ar no qual eu não detectava qualquer simpatia.

Já alguém alvitrava que fosse mandado chamar um funcionário da Comissão Europeia, entidade que fora, neste interim, alvo de alguns saborosos insultos e graves acusações, quando o severo portador do farfalhudo bigode, finalmente, se nos dirigiu.

Não garanto que a transcrição seja literal mas o essencial da conversa desenrolou-se mais ou menos da seguinte forma:

São portugueses?

Confessámos timidamente que sim, preparando-nos para invocar a atenuante da estúpida incompetência da Comissão, em Bruxelas. Mas o oráculo atalhou: “Eu nunca tinha encontrado um português…foi por isso que os deixámos para o fim.

Bom, talvez não fosse, afinal, tão grave como chegáramos a temer.

Sabem que foram os portugueses que descobriram as Maurícias?

Assentimos, agora com entusiasmo e, até, algum fervor patriótico.

Aqui, nas Maurícias, há a Ilha Rodrigues e ao pé as Mascarenhas, tudo nomes portugueses”.

Já um discreto sorriso assomava sob o bigode que tinha, ele mesmo, perdido algo do seu aspecto feroz. Sentíamo-nos, praticamente, em casa. Tudo estava bem!

Porém, de repente, houve uma reviravolta, tudo se estragou. As sobrancelhas voltaram a parecer façanhudas, um dedo adunco e acusador apontou-nos, a voz voltou a ser severa e, com grandes acenos de cabeça de concordância da parte do numeroso contigente de de subordinados, o homem rosnou: “VOCÊS COMERAM O PÁSSARO DODÓ!

Eu nunca tinha ouvido, sequer, falar do dodó até aquela altura, quanto mais comê-lo…

Fugazmente, passou-me pela cabeça a hipótese de uma perversidade gastronómica da companhia que tinha organizado o charter e que nos tivesse impingido, na horrorosa ementa que nos proporcionara como refeição durante o vôo, o pobre passaroco, fazendo-o passar por frango de aviário ou perú. Mas fazer tal maldade só aos portugueses?

Entreolhámo-nos, os portugueses, e creio sinceramente que, pelo menos a maioria, comungava da minha assustada perplexidade.

Seguiu-se uma prelecção sobre a história da descoberta e colonização da Ilha. Segundo parece, pelo menos naquela alfandegária versão, os bárbaros marinheiros portugueses, depois de meses a alimentarem-se de peixe, biscoitos e carne seca, perante bandos enormes de pacíficos e indolentes dodós encontrados ao desembarcar, desataram a espingardear, a apanhar à mão ou à rede, a esfaquear os pobres animais e a alambazarem-se com a carne fresca da desajeitada passarada.

Quando reembarcaram, rumando à Índia, deixaram para trás montanhas de carcaças de dodós e um arquipélogo onde se verificara a primeira grande extinção de uma espécie em tempos históricos.

Eu, por mim, sentia-me terrivelmente culpado, mesmo sendo-me difícil acreditar que umas dezenas de marinheiros, ainda que esfaimados, fosse capaz de produzir de tal catástrofe.

Por isso, quando o severo acusador se dignou despedir-se, com um amável sorriso e um individual e caloroso aperto de mão, pareceu-me isso um perdão cósmico que, finalmente, nos reconciliava, enquanto Povo, com a História.

Talvez um ou outro dos colegas que comigo viveram estes factos tenha deles uma memória aqui e acolá diferente.

A que eu guardo é esta.

E ainda hoje me sinto vagamente constrangido quando ouço ou leio sobre este passarão agora extinto.

28/8/2017

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    António Russo Dias

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