DO PEDANTISMO COMO UMA DAS BELAS – ARTES

Ajuda muito ter um físico de profeta bíblico, daqueles escatológicos, apocalípticos e catastrofistas, sobrancelhas hirsutas, barba revolta e voz cava.

A linguagem corporal e o trajar, embora menos importantes, não podem ser descuradas.

Se tiver havido, na tenra juventude, alguns devaneios idealistas, não há problema. Uma conversão ao realismo no(s) momento(s) adequado(s) aplana o caminho. Na verdade, frequentemente até o facilita.

A área de conhecimento de que o pedante se adorna será uma daquelas disciplinas difusas, assentes em ideias e cultura gerais, o que permite debitar pensamentos profundos seja sobre o que for. Em resumo: ser técnico em ideias gerais, especialista em tudo mas sempre com um vago odor a futurologia.

Assegurada a côdea, como diria o João César Monteiro, por uma cátedra, uma fundação, uns artiguelhos manhosos, uns livros ao sabor do pensamento que estiver a dar, está a coisa feita. O que é preciso é ter o nome em letra de forma e a caricatura de Ezequiel nas pantalhas.

A partir de aí, qualquer banalidade afirmada com convicção, qualquer parvoíce mesmo que manifestamente falaciosa, qualquer apreciação grandiloquente ainda que vazia, quaisquer patacoadas para «épater le bourgeois» provocarão no jornalista, no comendador, no comerciante ou na direita (e, infelizmente, em alguma esquerda) «ahs» e «ohs» de admiração, choque e pavor. A intelligentzia indígena disputará a honra de o ouvir e as baboseira lançadas em tom de apóstrofe farão delirar o pagode.

Nessa fase, dizer, por exemplo, «NÃO QUERIA QUE A GERINGONÇA FUNCIONASSE», poderá passar por original e ter honras de primeira página em «jornais de referência» sem que ocorra responder a quem cometeu o dislate que isso é evidente há muito tempo e não é muito original: o dr. Montenegro pensa o mesmo.

Ah, as lantejoulas da mediocridade…

28/5/2017

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