LEMBRANDO UM POEMA DE 2015

RETRATO

Sob a fleumática candura deslavada

Que convida ao desarme e à indiferença,

Esconde-se uma crueldade gelada,

Uma frieza glacial, uma dureza tensa.

Chamar-lhe-ia Cesário, melancólico,

“Sossegado espectro angélico da Morte”.

No seu país ensolarado e bucólico

É a eficaz serva dos povos do Norte.

Passam-lhe ao lado desgraças e fados,

As dores alheias é isso que lhe são.

Deleita-se com cifras, com mapas, com dados,

Tem um Excel no lugar do coração.

Presta-se, com gosto, a um sórdido dever,

Prestimosa ajudante de um cúpido teutão,

Rebaixar. a Pátria que a viu nascer,

Sem revolta, sem vergonha e também sem perdão.

Em bicos de pés, plácida e burocrática,

Feliz com a dor que o gnomo lhe inflige,

Declara, sorrindo, calma e hierática

Que dá ao senhor o que o senhor exige.

Dizem os outros, servos como ela,

Que é competente, sábia, eficaz!

Mas se se olhar com alguma cautela

Vê-se bem o que está por trás.

Está a falácia, o engano, a mentira,

Está a miséria, a fome e a morte

Mas o tempo muda e a roda gira

E novos ventos trazem nova sorte.

22/Fev./2015

)

    António Russo Dias

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