MACRON. UM CASO DE BONAPARTISMO ?

Peço a vossa atenção: o que se segue não é um texto de análise política; é apenas, um exercício de intencional especulação .

Em 2002, pela primeira vez na V República, o Front National francês colocou um fascista na segunda volta das presidenciais francesas, precisamente o père Le Pen, o sinistro pai da sinistra Marine Le Pen e obrigou o funcionamento do pacto do front republicain, isto é, o compromisso de todas as restantes forças políticas em apoiar o candidato da direita que havia ficado em primeiro lugar e que acabou por ser eleito por uma esmagadora maioria.

Já nessa ocasião, o PSF tinha caído na agora velha falácia que alguma esquerda, por ingenuidade ou má-fé, adora proclamar, e que reza que as eleições ganham-se ao centro; Lionel Jospin, o Primeiro Ministro socialista confessava, beatamente, o meu programa é moderno mas não socialista, o que era, de resto, completamente verdade. O programa do candidato do PSF só muito dificilmente se distinguia do de Chirac, Presidente da República cessante, sobretudo em matéria europeia.

As semelhanças com a pantanosa situação em que o dia eleitoral de ontem deixou os franceses, acabam aqui.

Antes de mais, o PSF disputava ainda com o RPR, o partido gaullista antepassado do actual Os Republicanos, a qualidade de maior partido de França, coisa que, do actual gropúsculo a que os seus lamentáveis dirigentes ainda insistem em chamar PSF, só por derisão ou chacota se pode dizer.

Em segundo lugar, a fidelização dos eleitorados também já não é o que era e os apelos ao «voto republicano» que honesta e angustiadamente se multiplicam, desde logo feitos por dois dos vencidos, Hamon e Fillon, e repercutidos, depois, por todos os políticos de fora do FN, incluindo alguns que podem ser contraproducentes e provocar fortes reacções de rejeição, como o do seboso e belicista Hollande, correm o risco de não ter a força mobilizadora dos de 2002. É quase certo, dizem as sondagens, que percentagens significativas de apoiantes de todos (nove) candidatos vencido se abstenham, incluindo entre os de Fillon e Mélanchon; chama-se a isso a «abstenção punitiva»; alguns (muito menos) votarão mesmo Le Pen. Para desassossego.

dos mais bem-pensantes e da gente respeitável, não será, ainda segundo as sondagens, dos que votaram Mélanchon que sairá o maior contigente dessas ovelhas negras.

Por último, Macron não é Chirac.

Chirac era um gaullista, ainda dos «heróicos» primórdios da V República. Como bom gaullista estava muito longe de ser um liberal, declarava e, de certo modo tentou, querer acabar com as fracturas sociais. No domínio da política externa tomou, por várias vezes, medidas corajosas e «fora dos consensos», como na oposição firme à à guerra do Iraque ou decisão de pôr termo aos ensaios nucleares franceses.

Era, portanto, um político com história, previsível e sólido, por quem a generalidade dos franceses acabou por sentir grande simpatia, apesar de uma vez, a sua mulher Bernardette se ter queixado que os franceses não gostam de Jacques.

Não passou incólume pelos affaires, foi o primeiro ex-presidente francês a ser julgado e condenado por corrupção e, durante a campanha contra Le Pen, foi muito popular um slogan que rezava votez escroc, pas facho (votem no escroque, não no facho).

Este era o candidato da direita que derrotou Le Pen esmagadoramente.

E era aqui que eu queria chegar.

E Macron?

Macron não é, evidentemente um homem de esquerda (nem de «centro esquerda», como já ouvi os habituais kumentadores domésticos e ssemi-analfabeto chamar-lhes, os mesmos a quem escutei dizer que Fillon é de…centro direita! Não, gentis locutoras e distintos locutores, Fillon, o seu partido, os seus apoiantes e os seus amigos políticos assumem, com naturalidade e até orgulho, a sua condição de direita, recusam a pindériquice paroquial e lusitana do centro esquerda e centro direita).

Ele próprio, Macron, afirma «não sou nem de esquerda nem de direita».

Ora, qualquer pessoa de esquerda sabe o que isso significa; quer dizer sempre, sem excepção, que o afirmante é de direita.

Não vou, agora discutir este assunto, para o qual, aliás, me falece a paciência e é tema que me mexe com o cerebelo. Os argumentos utilizados para tentar demonstrar a possibilidade desse angelismo político, dessa neutralidade estéril e enganosa, são tão evidentemente primários, que me levam sempre a constatar que há uma coisa que, certamente, não é de esquerda nem de direita: é a estupidez.

Macron é um homem de direita. Mais e pior do que só isso, pertence ao campo opressivo do pensamento único, é um financista e um neo-liberal, alinhado com as doutrinas deletérias de quem conduziu a Europa e Portugal ao estado lamentoso em que vegetam.

Há uma classificação clássica para distinguir as correntes que dominam a direita francesa. Vem do Marx d’ O 18 de Brumário e d’ As Lutas de Classes em França mas tornou-se tão consensual e popular que foi adoptada por toda a gente, até pela extrema direita.

Segundo esta classificação, a direita francesa manteve sempre, desde o sec. XIX, o essencial de três grandes famílias políticas: o legitimismo, o orleanismo e o bonapartismo.

A primeira corrente, foi chamada assim porque defendeu, após a Revolução Francesa, o regresso do absolutismo. Classicamente, passou a designar a direita conservadora, católica e ultra-reaccionária. Bem sei que o neo-fascismo recusa este rótulo, que prefere auto-alcunhar-se como nacionalismo revolucionário, soberanismo ou identitário. São falácias; e, ainda que possa haver entre os 20% lepenistas gente a quem se aplicassem os epítetos, continua a apoiar o FN tudo o que, em França há de católicos integristas, de maurrasianos, de nostálgicos do colonialismo, da Indochina e da Argélia, tudo o que é xenófobo e racista. O FN é, portanto, o partido legitimista na França de hoje.

Os Republicanos, com o seu gaullismo aguado mas ainda fiel aos rituais democráticos, com a sua nostalgia da ordem, da respeitabilidade e da bem-pensância, preenchem bem o lugar dos orleanistas, cuja designação remonta ao ramo da dinastia de Bourbon encabeçado pelo Duque de Orleans, ramo que tentou a síntese, nessa atura irrealizável, entre a monarquia e os Direitos do Homem, uma monarquia liberal e constitucional.

O bonapartismo deve o nome, evidentemente, a Napoleão. Não a Napoleão, o Grande, o primeiro Imperador (que, aliás, era de pequena estatura) mas ao seu sobrinho Napoleão III, a quem Marx chamou «o pequeno», a propósito de quem, n’ O 18 de Brumário completou a célebre afirmação de Engels a História repete-se duas vezes concordando que isso sucede a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

O bonapartismo acontece SEMPRE em épocas de crise, como é o caso agora. Aproveitam-se as conflitualidades muito acentuadas, a falta de perspectivas, o descontentamento generalizado, o medo da instabilidade e da violência. Neste caldo de cultura, surge um tipo improvável, aparecido de repente de sítio nenhum, sem se reclamar de nenhuma ideologia e declarando-se acima de todas as partes que disputam o Poder, sem se comprometer com nenhuma delas, qualquer coisa como «não sou nem de esquerda nem de direita». Começam a aparecer umas vozes, de preferência respeitadas (ou, pelo menos, respeitáveis) que o anunciam como a saída para o imbroglio. Como ninguém o conhece de facto, cada um projecta nele as suas esperanças e as suas ideias para sair da crise.

Claro que não tem exactamente a base de apoio de classe que Marx descreveu para o pequeno Bonaparte, o lúmpen, os agricultores, os exército. Mas tem os seus equivalentes, os desempregados políticos, os os servos da finança, os basbaques do euro-feitichismo.

Digam-me se não é Macron por uma pena.

Espero que Macron ganhe. Mais vale um pequeno Napoleão que uma fascista repugnante.

Já agora, lembro a algumas almas piedosas e à gente do beatério que o bonapartismo é, sobretudo, um populismo. Talvez mais polido.

24/4/2017

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