NUNO

«Sei ser isento mas não quero. Quero estar com os meus e contra os meus adversários. Cada um escolhe o seu campo».

Morreu um dos meus mais queridos e antigos amigos. O mais brilhante, o mais irónico. O mais talentoso.

Há mais de 50 anos que me habituei a gostar dele, a admirá-lo, a encantar-me com a sua verve, a maravilhar-me com a sua cultura que lhe permitia citar Schopenhauer ou dizer, sem um erro, todo o casting de Os Sete Magníficos, descrever numa crónica Engels no seu leito de morte ou imitar, na perfeição Peter Lorre no M-Matou de Fritz Lang.

Se divergimos algumas vezes em opiniões ou opções, sempre compreendi e aceitei as suas razões.

Foi, quanto a mim, o mais inteligente de toda a minha geração. Ele, de resto, contestava firmemente a ideia de que fôssemos da mesma geração. Argumentava que, tendo nascido em Dezembro de 1944 e eu em Setembro de 1943, enquanto eu vim ao mundo durante a II Guerra Mundial, ele pertencia à geração do pós-Guerra, cujo fim, evidentemente, foi marcado pela ofensiva das Ardenas. Tudo o que se seguiu às Ardenas, foi apenas o inevitável estertor do nazismo e o mero formalismo da rendição sem condições. «Por isso, meu caro», dizia o Nuno, «tu pertences à geração do Eisenhower, do Churchill e do Mao Tse Tung; eu sou da geração da tua filha».

Fomos camaradas, desde 61, nas lutas estudantis e em numerosos combates políticos antes de 74. Depois, partilhámos algumas barricadas.

Estivemos ao mesmo tempo na tropa, ele em Moçambique (onde o visitei) eu em Angola. Como milhares e milhares de outros, debatemo-nos com a angústia do dilema deserção/não deserção. Fomos dos muitos que aceitaram a ida para África. Fui uns meses antes dele. Talvez para me consolar ou moderar algum meu sentimento de culpa, escreveu-me anunciando a sua decisão, semelhante à minha: «Parei no patamar. Decidi não me exilar. Percebo os que o fazem proclamando ‘vou com o meu Povo’. Mas acho que nisto, não têm razão. Com o Povo vou eu».

Lembro os tempos da Faculdade, as SEJ, a AAFDL, a Cantina; recordo o Vává e o seu longínquo e menos cintilante sucessor, o Procópio.

Vêem-me à memória os nomes de amigos comuns que também já nos deixaram e, entre eles, o do seu irmão e meu compadre e também meu querido amigo, o Fanan.

Despeço-me do autor de centenas das mais geniais crónicas escritas durante a segunda metade do sec XX e dos primeiros anos do século que se seguiu.

Invade-me uma muito, muito profunda tristeza.

Junto num forte abraço a Céu, a Maria Emília, a Gina, o Alexandre, o Vasco e os netos.

29 de Abril de 2017.

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