O COMEÇO DO FIM DA HEGEMONIA DIREITISTA

Cautelosamente, sem triunfalismos entusiastas, é possível divisar alguns sinais ainda tímidos de que a hegemonia ideológica, política e governativa da direita se pode estar a aproximar do fim.

A supremacia ideológica da direita, que tomou forma logo no início dos anos 90 do século passado, transformou-se no pensamento único, formatou inteligências, recrutou nas franjas da social-democracia alguns dos seus mais combativos sicários, como os seguidistas das «terceiras vias» e outros liquidacionistas. De caminho, aniquilou a social-democracia europeia, remeteu os últimos resistentes da esquerda para o purgatório das curiosidades históricas, decretou que não há salvação fora dos mercados.

A sensação de que «eles» são todos iguais, que votar ou não votar, participar civicamente ou não, trazia exactamente as mesmas consequências, conduziu ao alheamento e à passividade, alimentou o crescimento da extrema-direita e dos novos fascismos.

O economicismo auto-proclamou-se uma ciência, propôs-se ser uma Weltanschauung, arrogou-se o direito de excomungar e ostracizar os que recusam a ditadura neo-liberal.

Nós, em Portugal, sabemos bem do que se trata. Como sempre, passámos por todos os degraus dessa descida, sofremos todas as consequências dos delírios, bebemos cada gota do fel deste estado de coisas.

A arrogância dos governos, vergados pela convicção de omnipotência do super-império, desencadeou guerras ilegais, destruiu países e povos, fez nascer e prosperar o terrorismo demente, fruto da religião, do desespero e da impotência.

Agora, sem nenhuma vitória espectacular – a geringonça é um dos primeiros resultados positivos mas é, ainda, uma gota de água – mas com uns sinais encorajadores e consistentes, há uns sinais de que pode ter começado o refluxo da vaga direitista.

O primeiro sinal de que me dei conta, foi a vitória do Syriza na Grécia. É verdade que, perante o fogo de barragem, o bombardeamento de saturação que contra ele se desencadeou, o Syryza cedeu. Nessa ocasião, até o insuportavelmente medíocre Passos Coelho, numa ilustração viva da velha fábula de O Burro e o Leão Moribundo, levantou as patorras e desferiu no nobre povo grego uns coices a despropósito. Lembro-me de, nessa altura, me ter recusado (e ter declarado isso) a atacar o governo grego ou a sua cedência à super-burocracia do eixo Bruxelas-Frankfurt-Washington. Atenas mostrou, pelo menos, que era possível ganhar eleições contra a Santa Aliança bem pensante.

Depois, foi a geringonça. Como disse acima, uma das poucas e frágeis vitórias de uma nova forma de reagir ao servilismo e ao mau gosto.

Seguiu-se Bernie Sanders, alvo e vítima do levantar de escudos da reacção, de WallStreet e dos belicistas. Esta já foi uma derrota exemplar; ele teria vencido largamente a besta que agora ocupa a Casa Branca e demonstrou à saciedade que o conluio entre banqueiros, fabricantes (e utilizadores) de armas e manipuladores políticos já não assusta as pessoas. Os resultados de Bernie Sanders são a segunda derrota vitoriosa.

Seguiu-se Mélanchon nas presidenciais. Vilificado, insultado, vítima dos mais baixos truques e manobras, intrometeu-se entre os potenciais candidatos à segunda volta e remeteu para o lugar que merece na História o panhonha Hollande, obrigado a atraiçoar o seu próprio candidato, Benoît Hamon, para abrir a estrada real ao pequeno bonapartista e defensor do financismo, o dúbio Macron e aos seus macroneiros. Talvez Mélanchon não consiga repetir, nas legislativas, os êxitos das presidenciais. Mas a pedra metida no mecanismo do moribundo sistema da decrépita V República, lá ficará.

É a segunda derrota que é uma vitória.

Há poucos dias, foi Corbyn, sobrevivendo a todas as traições internas e tentativas de golpes palacianos, a todos os insultos, à coligação da City, à desinformação da imprensa, dos peritos e analistas e provando, ele também que vale a pena ser claro, honesto e intransigente na defesa do bem público e que não é necessário macaquear a direita para que as pessoas, os eleitores ouçam, concordem e adiram. Mais uma vez, não ganhou a maioria; mas ganhou muitas outras coisas: o maior crescimento do partido desde o século passado, a estima e a admiração das pessoas e um capital político que vai, tenho a certeza, prosperar.

Quero lembrar, mais uma vez, que é habitual enganar-me quando faço previsões.

10 de Junho de 2017