O GENERAL DEPOSTO, O COZINHEIRO E A CABRA

Chefiei, em tempos, uma Embaixada onde esteve asilado, obviamente com a concordância de Lisboa, um político local caído em desgraça.
Durou a situação exactamente um mês e devo dizer que ela não foi muito agradável, sobretudo nos primeiros dias, antes de os cerca de dezasseis acompanhante, entre familiares, colaboradores mais próximos, médicos e um ou dois ex-ministros irem, a pouco e pouco, debandando da casa sobrelotada, à medida que o clima político amainava e se consolidava o regime saído do golpe de Estado.
Um dia, a outrora importante personagem (voltaria a sê-lo uns anos mais tarde; mas isso é outra história…) informou-me que o seu aniversário seria daí a uns dias e que gostaria de poder preparar um prato tradicional do seu país, à base de carne de cabra, pelo que pedia que fosse autorizada a entrada na Embaixada da matéria prima para o manjar. Aliás, convidou-me a participar da festa e do repasto, o que, delicadamente, recusei.
Mas autorizei a introdução das vitualhas e até a entrada de um pequeno número de convidados muito seleccionados e sujeitos a escrutínio das novas autoridades que, por razões evidentes, mantinham uma apertada vigilância sobre o edifício.
Na data aprazada, o cozinheiro, um velho concidadão do aniversariante asilado, apareceu no meu gabinete, muito agitado, a queixar-se que “o General queria fazer feitiçaria e que, para isso, já tinha uma cabra” que serviria para um complexo e maléfico ritual.
Eu tinha uma vaguíssima noção da complexa visão religiosa do Universo que o povo do país em questão adopta, da exuberante teia de crenças que a compõem.
Mas sabia que se trata de uma concepção da vida em que a magia, no sentido das relações omnipresentes entre o mundo visível e o invisível, é um facto aceite e indiscutível. Sabia, também, que havia práticas de rituais de sangue, sacrifícios sobretudo de animais domésticos, galinhas e cabras, por exemplo.
Procurei acalmar o excitado fornecedor das minhas iguarias, temo mesmo que um sorriso paternalista me tivesse surgido na boca, e informei o homem que tinha sido eu a autorizar a entrada da carne de cabra que ia ser utilizada na confecção do prato para a festa do aniversário.
“Carne?” — disse o cozinheiro, entre o assustado pela hipótese de bruxaria e o divertido pela minha ingenuidade — “a cabra está no portão da residência. Está VIVA ! E é uma cabra PRETA !”
Aí, confesso, ruíram as minhas convicções racionalistas, esfumou-se a minha pretensa superioridade cultural e o pormenor da cor da pelagem da bicha foi determinante.
A cabra teve que voltar para trás e só regressou, ela ou outro exemplar da mesma espécie, já falecida, esfolada e devidamente esquartejada.
Houve festa mas não houve sacrifício de cabra. Pelo menos naquele dia.
8/8/2017
