O “POLITICAMENTE CORRECTO”, UM EMBUSTE DIREITISTA

NOTA: a ideia de voltar a tratar este tema foi-me sugerida por uma passagem de um excelente artigo de Fernanda Câncio, “Nunca lutes com um porco;”, publicado no DN de 7/8/2017, e cuja leitura ouso recomendar vivamente.

Eis a passagem referida:

Porque ser sério e fundamentado dá muito mais trabalho do que mandar bocas e dizer coisas que vão ao encontro dos estereótipos, dos preconceitos, dos ódios. E agora, ainda por cima, temos o estribilho da ‘censura do politicamente correto’ de cada vez que nos indignamos contra afirmações e posições que põem em causa valores basilares da civilização europeia que julgávamos (et pour cause) inquestionáveis para sempre, como a igualdade e o princípio da não discriminação.

(fim da citação)

A expressão politicamente correcto tem a sua origem nos EUA e é mais uma prova de como é verdadeira a asserção de Marx acerca de “a ideologia dominante (ser) a ideologia da classe dominante”. Foi com a hegemonia ideológica da direita, instalada em meados dos anos 80 e exercida durante o decénio seguinte, que a acusação de politicamente correcto ganhou foros de cidade e se tornou uma forma de sintetizar a ideia de que a esquerda, por intermédio de um conjunto de pessoas anónimas mas muito poderosas, procura determinar e controlar tudo o que cada um nós faz, até ao pormenor das palavras que usamos.

Um dos resultados do facto de a expressão provir do campo hegemónico foi que ela foi também adoptada por algumas pessoas que se auto classificam, muitas vezes honestamente acreditando nisso, de esquerda; mas foram vítimas daquilo que a direita que popularizou o insulto pretendia: a sensação de exclusão e o receio de ser considerado um intelectualóide rígido e pouco flexível — logo, pouco inteligente — recruta do exército automatizado da esquerda. Eram (são) pessoas que usam o epíteto com o mesmo sentido e dirigido contra o mesmo tipo de atitude com que a direita o utiliza, sem se darem conta que, como assinala Maria de Lourdes Rodrigues, o antipoliticamente correcto pode resvala, com grande facilidade e muito rapidamente, para o populisticamente correcto.

É que dizer de uma pessoa ou de alguma atitude que é politicamente correcta funciona como o que os retóricos gregos chamavam um exónimo, isto é, um termo para outro grupo que assinala que aquele que o utiliza não faz parte de nós. Nunca ninguém se descreve a si próprio como politicamente correcto; trata-se de uma frase que é sempre uma acusação ou um insulto ou os dois ao mesmo tempo.

Ultimamente, o uso da expressão como arma de ataque e anátema, voltou às arenas do debate político, depois de um breve refluxo. Esse regresso “triunfal” deve-se à vitória de Trump, um paradigma do antipoliticamente correcto que exuberantemente manifestou durante a campanha e depois dela, a Marine Le Pen, aos tablóides da direita britânica e até, acabo de o descobrir, à extrema-direita alemã, com o chefe da polícia Rainer Wendt a acusar os “esquerdistas” de pressionarem os agentes para serem politish correct.

E tudo indica que algumas sumidades kumentariais da esquerda indígena se preparam, mais uma vez, para voltar a empunhar o estandarte.

Tentemos determinar a génese da moda.

Foi nos EUA, isso é certo, e já o assinalei acima.

Curiosamente, a expressão parece ter nascido, de facto, no seio da esquerda americana e no então robusto e activo movimento estudantil, muito provavelmente como uma citação irónica de Mao, do Pequeno Livro Vermelho que divulgava um célebre discurso do líder chinês intitulado Sobre a Correcta Resolução das Contradições no Seio do Povo. Volto a salientar que que, nesta altura, segundo autores muito diversos, a classificação de politicamente correcto era usada em tom de troça e brincadeira.

A generalidade dos americanos — e, depois, dos restantes povos — só tiveram o primeiro contacto com o conceito, então já no contexto em que é actualmente usado, depois de 1990, quando uma série de notícias e histórias começaram a aparecer em jornais e revistas. Um dos primeiros e dos que exerceu maior influência, foi a do repórter Richard Bernstein do New York Times que, num artigo intitulado The Rising Hegemony of the Politically Correct, denunciava que as universidades americanas estavam a ser ameaçadas por “uma crescente intolerância, o desaparecimento do debate, um pressão do conformismo”.

Bernstein tinha alguma razão sobre o ambiente de intolerância que se vivia nas maiores e mais importantes universidades mas, além de esconder que essa situação se verificava dos dois lados, da esquerda e da direita envolvidas, na altura, num aceso debate — que não excluía a violência física — tinha um tom de alarmismo exagerado que desencadeou uma espécie de reacção em cadeia.

Lembremo-nos, também, que foi nesta época que começou a afirmar-se a influência ideológica e a presença nos media, do movimento neo-con, cujos principais mentores eram antigos trotskistas reconvertidos e, presumivelmente, familiarizados com a terminologia universitária dos anos 60 a que acima fiz referência, tornando-se, por isso, difusores privilegiados do conceito.

E Moira Read, a quem fui buscar alguma da informação usada neste texto,continua, no seu artigo publicado por The Cuardian de 30/11/2016, intitulado Correcção Política: Como a Direita Inventou um Inimigo Fantasma:

No mês seguinte, a colunista do Wall Street Journal Dorothy Rabinowitz denunciou o “admirável mundo novo do fanatismo ideológico” nas universidades americanas. Em Dezembro, a capa da Newsweek — com uma circulação de mais de 3 milhões — aparecia com o destaque “POLÍCIA DO PENSAMENTO” e mais um aviso ameaçador: “Há uma forma “politicamente correcta” de falar sobre raça, sexo e ideias. Trata-se do novo Iluminismo — ou do novo McCarthysmo?.

Toda a imprensa seguiu a orientação. Logo a seguir, o New York Magazine (“Os Novos Fascistas” estavam a tomr conta das universidade), a Time reportava sobre “uma nova intolerância que crescia nas universidades” e por aí adiante, até criar no público americano (e, por consequência da hegemonia intelectual americana nas mentes mais bem-pensantes da Europa), a ideia que estava em curso uma vasta conspiração dos “liberais” (no sentido em que a palavra é usadas nos EUA) e das “elites” intelectuais e com formação superior contra o american way of life.

Claro que era um daqueles delírios paranóicos que, de vez em quando, agitam os EUA.

Mas não será verdade que se verificava, na esquerda americana, um incremento de uma visão intolerante do Mundo e uma exigência sectária e intransigente sobre o uso de certas palavras consideradas ofensivas para certas minorias?

É muito provável que sim, é quase certo que sim. Mas é preciso ter em conta que a luta contra os delírios neo-cons, que viriam a culminar no inominável George W. Bush, na tragédia do Iraque e no que se lhe seguiu, a mentalidade de bunker que, por vezes, se instala nos sectores minoritários que constatam a desigualdade entre as armas que possuem e aquelasm que os seus inimigos têm à sua disposição, tivessem contribuído decisamente para esse resultado.

Mas a questão central é que a facilidade e os propósitos com que a acusação/insulto de politicamente correcto é utilizada, distorce imediatamente qualquer discussão, põe o seu alvo numa atitude defensiva e é, as mais das vezes, uma forma demagógica, populista e desonesta de arguir qualquer ponto de vista.

O filme que Fernanda Câncio cita no seu excelente artigo — e que vi, muito recentemente, na TV por cabo — ilustra muitíssimo bem o que acabo de dizer. Dou a palavra à jornalista:

(…)o filme Denial/Negação, sobre o processo de difamação que o negacionista do Holocausto David Irving colocou, nos anos 1990, a Deborah Lipstadt, uma historiadora judia americana especialista no processo de eliminação dos judeus levado a cabo pelo regime nazi. Um dos momentos cruciais do filme ocorre no início, quando Lipstadt dá uma conferência sobre o seu livro Negar o Holocausto (1993) e é desafiada por Irving, que está na audiência, a provar que o Holocausto aconteceu. Agarrando num maço de notas, este grita: “Dou mil dólares a quem consiga provar que Hitler ordenou o extermínio dos judeus.” Lipstadt recusa debater com ele, limitando-se a pedir que se cale e saia. Ele vangloria-se: “Não quer debater comigo, chama a segurança para me calar.” A imagem de Lipstadt como uma cobarde opositora da liberdade de expressão que não tem argumentos para o derrotar fica assim registada em vídeo (Irving levou um cameraman), por mais que esta explique que não debate com quem nega o Holocausto porque a existência do Holocausto não é matéria de opinião.

Como não debaterá, exemplifica, com quem diz que Elvis está vivo.

Mas Lipstadt teve mesmo de se confrontar com Irving, e no lugar de arguida. Teve de aceitar provar, num tribunal, 50 anos depois do Holocausto, que este existiu, e que Irving não só escreveu falsidades como fê-lo conscientemente, com o objetivo de branquear Hitler e de acusar os judeus de inventarem o massacre metódico do seu povo. E, o que é mais incrível ainda, não foi fácil fazê-lo. Mas como, perguntar — se-á. Houve milhões de mortos. Houve julgamentos dos responsáveis. Há campos de concentração mantidos como monumentos, há crematórios, há fotos, há testemunhos. Sim, há (ou havia) testemunhos; mas a equipa de defesa de Lipstadt recusou, e bem, submeter sobreviventes à humilhação de serem questionados por Irving. Restavam as provas puras e duras — e dessas, constata-se com espanto, não havia assim tantas. Os nazis destruíram os crematórios quando abandonaram os campos e nenhuma pessoa saiu das câmaras de gás com vida para contar.

Na libertação dos campos houve, claro, quem documentasse as pilhas de corpos emaciados e o estado dos sobreviventes. Mas não houve uma investigação metódica que recolhesse todos os indícios da chacina — ninguém antecipou, perante aquele pavor, que surgiria a tese de que era tudo mentira. A boa-fé é assim: raramente se precavê contra a má.

Não fica claro no excerto mas, no filme, Irving acusa, por diversas vezes, Lipstadt de se recusar a debater com ele e a não aceitar os seus argumentos por correcção política.

É que, se alguém disser que uma declaração ou a defesa de uma posição é politicamente correcta isso implica que essa declaração ou posicão tem intenções obscuras e insidiosas. Desde logo, que o autor está de má-fé, que tem motivos ocultos e esconde a verdade para atingir fins não declarados ou para explorar alguma forma de superioridade moral que é insultuosa e desprestigiante para o seu interlocutor. Quer dizer, se alguém me acusa de ser politicamente correcto está a implicar, de uma assentada, duas coisas que me desacreditam: primeiro, que estou errado; segundo, e muito mais prejudicial, que quem me acusa sabe disso.

Agora, que conhecemos a origem da expressão, sabemos que a correcção política nunca foi um movimento, que não há nenhuma coerência ou unidade entre aqueles, e aquilo, que são acusados de tal pecado. Mas sabemos também que há coerência, unidade de pontos de vista e objectivos comuns e que HÀ UMA CAMPANHA CONTRA UMA COISA A QUE CHAMAM CORRECÇÃO POLÌTICA.

Desde os idos de 90, a invocação desse vago e fugidio adversário, tem sido uma arma de arremesso que qualquer pequeno e médio direitista se compraz em usar, uma táctica cripto-fascista para torpedear discussões e argumentos.

Mas quem quer ser politicamente incorrecto ao lado de José Manuel Fernandes ou de João Miguel Tavares?

Está na hora de desmontar a artimanha e denunciar os seus utilizadores.

7/8/2017

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