O QUE PORTUGUESES QUEREM

Incomoda-me, provoca-me urticária no cerebelo, a displicência com que certas luminárias com acesso à TV e aos jornais se arrogam o conhecimento dos mais recônditos estados de alma dos seus concidadãos.

Irrita-me, dá-me beliscões na inteligência, a facilidade com que dizem “os portugueses sabem”, “os portugueses querem”, “os portugueses são” sem, sequer, estarem apoiados em sondagens ou estudos de opinião.

Qualquer badameco com pretensões a secretário de Estado, a ministro ou a presidente da junta se permite, com cenho franzido e ar professoral, assegurar ao mundo — e, já agora, à família que pressurosamente se reuniu para assistir à prestação televisiva — que conhece os mais íntimos desejos ou os mais secretos pensamentos dos cerca de 10 milhões de lusitanos.

Chega um jovenzito enfezado e prematuramente calvo, armado de recente MBA e de olhar lubricamente ambicioso por detrás das lentes grossas, e dispara que “os portugueses sabem que a descida das taxas de juro nas principais praças (…)”; vem um velhaco qualquer, de meia-idade, de voz irritantemente metálica e perfil de periquito da Índia, e lança que “os portugueses querem estabilidade política e um superávit nas contas públicas (…)”. A flausina muito liró, o peralvilho catita, todos sabem, de ciência certa o que vai na alma transparente do lusíada.

Todos, menos ele. Têm que ser eles a dizer, explicar o que é bom para ele, de que(m) é que ele gosta, e tudo.

Este tipo de desconchavo parece ter começado em comícios e depressa alastrou a tudo que é “opinião”.

E, vindo da chamada classe política, já contaminou o comentariado e a jornalícia.

Irrita-me!

21/9/2016

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