O SÍNDROME DO CÃO DE OBAMA

«O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.»

Fernando Pessoa

Será Coimbra «a Lusa Atenas»? E Aveiro, atravessada por UM canal, será a «Veneza portuguesa»?

Só porque o pato-bravo que lá tinha começado a construir um prédio de sete andares burlou os patrões e fugiu com a massa para a França é que se salvou a freguesia de S. Veríssimo de vir a ser chamada «a Manhattan de Barcelos», simpática cidade que, aliás, nada fica a dever a Skopje, a capital da Macedónia.

Não chegarei ao ponto de afirmar que esta estranha compulsão para procurar fora de nós próprios razões para auto-congratulações é específica ao povo português. Mas cabe como uma luva no que Pessoa chamou «o mal superior português».

«A praia mais bonita do Mundo», a gastronomia mais admirada, a paisagem mais espectacular, o maior futebolista de toda a história, as celebridades que se embasbacam com as vistas, a Senhora de Fátima, o Salvador, claro, a Madonna que se digna honrar-nos com os piquenos, e agora o Centeno «elogiado» pelo sinistro Schäuble exactamente como o Ronaldo do eurogrupo e a correr o risco de vir a ser «o Dijsselbloem lusitano»! Como resistir?

Enchem-se de orgulho os peitos dos compatriotas, rebentam em hossanas as vozes dos egrégios avós, o patriotismo escorre de cada boca em golfadas contínuas.

Espelho meu, espelho meu…

Volto, a propósito do sinistro teutão e do simpático Centeno, a citar Pessoa:

«É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário.»

É verdade, Portugal está na moda. Sobretudo em Portugal.

25 de Maio de 2017

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