REDES SOCIAIS E JORNALISTAS

.

Tem, evidentemente, razão quem se insurge contra a violência inquisitória que paira nas redes sociais sobre os jornalistas.

Teria igualmente razão quem se referisse aos ataques descabelados e acusatórios que se verificam, nas ditas redes, aos dirigentes dos clubes de futebol, aos funcionários públicos, aos políticos, aos chóferes de taxi e a uma série infindável de outros grupos profissionais e/ou sociais.

Mas também poderia acrescentar que há nas redes sociais alguns elogios aos mesmos grupos.

Há mais críticas insultuosas do que elogios ditirâmbicos? Sem dúvida, mas isso é da natureza do chamado espaço público. Porque haveria alguém de, sistematicamente, escrever numa rede social que o jornalista Fulano de Tal publicou hoje uma peça equilibrada, sem erros de português, onde se nota que pesquisou sobre o assunto e o trata com rigor e isenção? Isso equivaleria a elogiar, no feicebuque, um chófer de taxi porque me levou do sítio X ao lugar Y pelo trajecto mais rápido, sem resmungar por a corrida ser curta nem me sarrazinar os ouvidos com louvores ao Salazar e insultos ao Governo ou considerações avulsas sobre o Sócrates.

Mas o caso dos jornalistas é ainda mais extremado.

Os jornalistas, saberão todos melhor do que eu, têm uma responsabilidade exorbitante porque formam (ou deformam) a opinião pública, informam (ou desinformam) o público sobre a realidade e porque, mal ou bem, havia tradicionalmente um pressuposto de seriedade e uma espécie de assumpção prévia de que o que aparecia em letra de forma ou o que deu na televisão correspondia indiscutivelmente à verdade.

Esse tempo acabou, o grande jornalismo, sobretudo o grande jornalismo de causas, passou à história.

Sobre as razões da decadência dessa nobre actividade, da qualidade dos seus executantes e dos veículos por ela utilizados, escreveram-se livros (eu li mais do que um) e muitos mais se escreverão.

Nem tudo é mau no reino do jornalismo; pelo contrário, há profissionais que nos reconciliam com essa actividade e que são credores da nossa admiração e apreço.

Infelizmente, trata-se, julgo, de uma minoria dentro da turba de semi-letrados, mal pagos e eternos estagiários que vegetam nas redacções e se prestam a fretes e a desonestidades como, por exemplo, escrever falsamente que determinada pessoa está nalgum sítio, a desempenhar certo papel, quando isso, além de poder ser facilmente comprovável, ajuda a firmar uma ideia falsa que o escrevente pretende passar.

Há outra coisa que se diz e que é absolutamente verdadeira e indiscutível: desejar, pedir ou tentar que um jornalista perca o trabalho e seja lançado no desemprego é uma ignomínia.

Não por ser jornalista mas porque toda a gente, seja quem for, deve ser poupado ao humilhante flagelo do desemprego. Mesmo uma pessoa desonesta, incompetente ou moralmente detestável.

Mas deixar de a ler ou mudar de canal quando ela aparece, é legítimo e aconselhável.

20/Junho/2016

Show your support

Clapping shows how much you appreciated António Russo Dias’s story.