TRAGÉDIAS E JORNALISTAS

Quando acontece uma tragédia, todos sabemos. E, muitas vezes, elas lembram-nos outras: o dia em que aquela tempestade matou adultos e crianças, o descarrilamento do comboio, a morte absurda de toda aquela gente, o incêndio gigantesco que destruiu vidas, propriedade e natureza.

Há jornalistas, em sentido lato – repórteres, fotógrafos, equipes de televisão – que durante toda a sua vida, estiveram, de alguma forma, envolvidos em tragédias que vão de guerras a ataques terroristas, de acidentes de grandes proporções a desastres naturais e assassínios em massa. Todos provocando vítimas, afectando famílias e comunidades, criando memórias que acompanharão permanentemente os mais envolvidos.

O jornalismo dos EUA é, provavelmente e com todas as suas complexidades e contradições, o melhor do Mundo, aquele que, na generalidade, preenche da forma mais sóbria e militante a função e os objectivos da imprensa e da indústria da informação.

A cultura jornalística dos EUA, como tudo o resto, foi profundamente marcada por muitos acontecimentos trágicos mas foi, sobretudo, o 11 de Setembro de 2001 que desencadeou, dentro da própria classe, uma profunda reflexão sobre o papel do jornalismo e dos jornalistas quando acontece uma tragédia de grandes proporções.

Hoje, faz quase parte dos princípios do jornalismo que são aceites por todos os media que, para desempenhar correctamente o seu papel, os jornalista têm que ter em consideração três áreas fundamentais:

AS VÍTIMAS. As mortes, os ferimentos, a dor física e moral das vítimas e dos seus próximos, devem ser tidos em conta com a maior delicadeza e cautela. É inaceitável a exploração obscena e despudorada da dor, do pânico e do descontrolo psicológico.

Depois do caso que ficou conhecido como o «atentado de Oklahoma», Ed Kelley, então editor principal do The Oklahoman, lembrou aos seus jornalistas que a história de uma tragédia é sempre, em primeiro lugar, uma história de pessoas.

Num memo dirigido á redacção, escreveu: «Muitas destas pessoas que morreram era muitíssimo semelhantes a nós. Viveram vidas felizes e úteis. As crianças que morreram com elas, tinham o mesmo potencial.»

A COMUNIDADE. Um jornalista sério e responsável deveria ter sempre presente que a forma como cobre um acontecimento deste tipo vai, certamente, ter uma influência determinante na forma como a comunidade vai reagir no(s) dia(s) que se segue(m) à tragédia.

Chris Peck, presidente da Associated Press, disse numa convenção da sua empresa em Outubro de 2001, em Milwaukee, o seguinte: «Os nossos jornais ajudaram o país a compreender o que se passou em Nova Iorque e em Washington. Os nossos jornais serviram como um terreno comum a que os cidadãos vieram para compreender a tragédia e para partilhar as suas preocupações, a sua solidariedade e as formas de enfrentar o que se passou.» E Sherry Poke, editora da Spokesman Review de Pokane, Washington, acrescentou, «As nossas páginas continuam a aproximar as comunidades. Os nossos repórteres, fotógrafos e editores têm uma capacidade singular e inestimável que ajudou o país a compreender e a ter em conta questões complexas e políticas públicas.»(sublinhado meu).

OS JORNALISTAS, finalmente. Ninguém bem-formado consegue ficar imune a uma contecimento tão traumático como assistir, ao vivo, a uma tragédia.

O,s jornalistas, tal como bombeiros, equipas médicas, elementos da Protecção Civil e mesmo políticos locais e nacionais, enfrentam desafios terríveis face a uma tragédia violenta e que provoca mortes. Todos eles assistem pessoalmente, interagem e contactam com as consequências directas e com vítimas que estão a sofrer atrozmente. Muitas vezes essas pessoas, incluindo os jornalistas, têm a necessidade de criar uma muralha, uma barreira entre eles e os sobreviventes e outras testemunhas com quem contactam. Com essa barreira, correm o risco de não terem em devida atenção os motivos por que ali estão, as suas prioridades e a hierarquia dos interesses que estão em jogo. Em Portugal, usa-se. muito, de uma forma falaciosa e primária, um estereótipo proclamado frequentemente de uma forma arrogante e auto-absolutória: «o primeiro dever de um jornalista é informar»; será, mesmo, o primeiro? Não será só um dos primeiros?

De uma forma geral, creio que bombeiros e membros da Protecção Civil são preparados para enfrentar de forma mais serena e profissional esses desafios. Não me parece que os jornalistas portugueses, mesmo os mais «batidos» e experientes o estejam. Pelo menos pelos exemplos que temos.

Em Setembro de 2001, Al Tompkins, do Poynter Institute para os Estudos dos Media, escreveu: «Repórteres, fotojornalistas, engenheiros de som, produtores em directo, trabalham lado a lado com os trabalhadores de emergência. Os sintomas de stress traumático dos jornalistas são notoriamente semelhantes aos dos polícias e bombeiros que trabalham na sequência imediata da tragédia; contudo, a quase totalidade dos jornalistas recebe pouco ou nenhum apoio depois de terminarem os seus relatos. Enquanto aos trabalhadores da segurança e da protecção civil têm debriefings e recebem apoio psicológico depois de um trauma, os jornalistas são enviados para cobrir outro acontecimento.»

Tem isto alguma comparação com o que vimos (com o que vemos) ou lemos nas televisões e nos jornais indígenas?

Há alguma delicadeza, alguma «compaixão» com se usa dizer em inglês, alguma responsabilidade ética ou profissional, alguma preparação prévia ou posterior?

Ou tudo cede perante o entusiasmo grosseiro das meninas, dos meninos e dos mais crescidos, de microfone em riste como se fosse uma arma, a correrem de um lado para o outro à procura do ângulo mais favorável? Ou da exploração grotesca da dor, das lágrimas e dos gritos de desespero, dos aproveitamentos obscenos de qualquer pormenor para fins baixamente politiqueiros ou para a criação de polémicas artificiais e bombásticas?

A avidez necrófila dos «atropelamentos» e das «pneumonias» e similares, para aumentar os números de vítimas? O recurso a um post de uma senhora no Facebook a contrapor às declarações oficiais da PGR, do governo ou ao simples bom-senso?

O que é feito do jornalismo do meu país?

24 de Julho de 2017

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