UM TEXTO JÁ ANTIGO QUE FUI DESENTERRAR.

DIAS LOUREIRO, o «cavaleiro da indústria», em tempos apontado pelo então pm Passos Coelho como exemplo à juventude portuguesa, nasceu, rezam as crónicas, no seio de uma família sem grandes posses em Aguiar da Beira.

Conta-se que, depois de terminar o curso de direito em Coimbra, teve de pedir dinheiro emprestado a um amigo para poder comprar um bilhete de comboio para se deslocar a Lisboa.

Sabe-se que as lendas florescem em redor dos grandes homens e talvez seja uma lenda, tal como poderá ser uma lenda o célebre telefonema que, filho dedicado, terá feito, muito pouco tempo depois, para Aguiar da Beira: «Pai, sou ministro».

Serão lendas. Mas a verdade é que, tendo sido rápida (em menos de dez anos) e sucessivamente, Governador Civil, SG do PSD e Ministro, o promissor bambino de Aguiar da Beira. percorreu um trajectória fulgurante, alucinante mesmo.

Rapidíssima foi, também, a escalada nas finanças pessoais.

Em 1995, ao deixar o governo, era pobre, como ele próprio declarou: «Quando saí da política não tinha dinheiro nenhum.»

E antes de entrar também não.

Era um problema mas era de fácil resolução: seis anos depois declarou, para o IRS, rendimentos superiores aos de Belmiro de Azevedo (200 mil contos).

Sabendo-se da lisura e honradez do bicho, não é muito arriscado conjecturar que a maquia devia ser bastante maior.

A irresistível ascensão de Dias Loureiro é admirável.

Torna-se um dos homens mais poderosos do País.

Priva com os grandes deste Mundo, joga golf com Clinton, que conheceu por intermédio de um seu amigo e sócio, o libanês Abdul Rahman El-Assir, negociante de armas, parceiro em várias traficâncias em Marrocos (venda da REDAL) e Porto Rico (a obscura negociata da BIOMETRICS).

El-Assir foi sócio das famílias Bush e Bin Laden, em vários negócios e foi inúmeras vezes apontado pela imprensa internacional como um dos maiores traficantes de armas do mundo.

Outro personagem de contornos, digamos assim, «romanescos» e que muito se cruzou com Dias Loureiro, era Driss Basri que, como ministro do Interior de Marrocos, celebrou com aquele, então seu homólogo, alguns protocolos e acordos e foi, também, instrumental no negócio da REDAL.

Basri, caído em desgraça junto do monarca marroquino, exilou-se em Madrid, onde morreu.

Antes disso, foi processado é acusado pelo juiz Baltazar Garzon por genocídio de saharauís, tortura, assassínios e corrupção.

Além do Palácio Real de Rabat, Dias Loureiro também tem as sua entradas no Palácio da Zarzuela, provavelmente obtidas através de El-Assir e de Aznar, de quem se torna amigo por influência do genro deste, Alejandro Agag, seu émulo espanhol, personagem, ao mesmo tempo, «haut en coleurs» e cheio de zonas de sombra.

Na Pátria, um frequentador e tu-cá-tu-lá com os Poderes do Mundo não deixa os créditos por mãos alheias: relaciona-se, claro, com a cavacal figura que não só o faz Conselheiro de Estado como resiste quase até à última gota do vinagre que lhe corre nas veias a apeá-lo da augusta posição, com Durão Barroso e, pelos vistos, com o inefável P. Coelho.

Mantém, também, laços conhecidos com personalidades doutros partidos.

No que se refere a contactos, a passagem pela Administração Interna, permite-lhe o «toque», aquela subtil «nuance» que distingue os verdadeiros artistas dos amadores esforçados.

Alguém que lhe esteve próximo afirmou que ele seguia com o «maior interesse» o trabalho e os resultados da actuação dos serviços de informação que tutelava.

Em 1994, na sequência de uma «bavure» do SIS, afasta o «histórico» Ladeira Monteiro e nomeia para o lugar o seu amigo Daniel Sanches, entregando, ao mesmo tempo a chefia da secreta militar ao seu conterrâneo e também amigo Lencastre Bernardo.

Ora, o nosso herói, ou melhor, o herói do ridículo pm, tem a fama de adorar «dossiers» muito completos sobre gente de proveniência e colocação vária.

Por outro lado, «muita gente lhe deve favores».

A conclusão é evidente e não é necessário ser leitor de policiais nem adepto de teorias da conspiração para tornar aceitável a existência de algumas suspeitas a que ele reage com enérgicos e indignados desmentidos.

Mas, como gostam de lembrar alguns, «informação é poder»

Em Fevereiro de 2001, nomeado administrador da SLN, Dias Loureiro convidou Daniel Sanches e Lencastre Bernardo, dois dos maiores especialistas portugueses na arte da espionagem, para a holding do BPN.

Isto é, dois impolutos cidadãos originários da «comunidade das informações» onde, como disse um magistrado, «tiveram acesso aos mais valiosos segredos políticos, económicos e empresariais», transformam-se num ápice, em virtude de talentos insuspeitos, em empresários também impolutos.

O procurador-geral-adjunto Daniel Sanches, quando abandona o DCIAP, para se abalançar a outros voos no mundo da alta finança, descansou-nos: «A informação que levo não me vai ser útil», disse Daniel Sanches.

Não parece, porém, que tenha convencido muita gente.

Três anos depois, em 2004, o mesmo Daniel Sanches vem a obter a pasta ministerial, que já fora do seu amigo e mentor, no alucinado e trapalhão governo de Santana Lopes.

A coisa durou pouco. Tão pouco que, apanhado pela queda da tropa-fandanga santanista, o ex-espião não teve tempo de, com calma e sem atropelos, dar o nó corredio numa inqualificável tranquibérnia e foi já com o «governo» em gestão que o MAI adjudicou o super-negócio do SIRESP (Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal) a um consórcio liderado pela SLN/BPN, onde trabalhara. A moscambilha valeu cerca de 500 mil euros!…

Já vai longa a prosa e imprópria para este veículo.

Não vou deter-me, por isso, noutros «casos» em que Dias Loureiro foi figura central e beneficiário.

No caso OMNI, por exemplo.

Ou, evidentemente, no caso BPN.

Nem vou falar dos carros, das motos, dos quadros, dos luxos, dos gostos requintados (e caros) que não levantariam qualquer problema, não fossem as sulfurosas circunstâncias que acompanharam o percurso do personagem.

Mas o que fica – e algumas das «histórias» são pouco divulgadas e ainda menos investigadas – é suficiente para podermos aquilatar do descabelado elogio que o pobrezito do pm produziu há dias.

2 de Maio de 2015

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