Verdades alternativas

Vivemos tempos negros e há uma consciência vaga e difusa de que as nossas vidas não nos pertencem inteiramente, de que a verdade que nos é servida, ou melhor, que nos impõem não o é ou, pelo menos, não é completamente desvendada. É um mundo ilusionista, em que é difícil ter a certeza de que o que acontece está de facto a acontecer, em que muitas vezes as linhas de demarcação que parecem claras são, na verdade, esbatidas e móveis e as certezas simplistas com que nos martelam o crânio não passam de gigantescas fraudes.

Talvez esteja aí a raiz da sofreguidão com que acolhemos revelações apocalípticas que sugerem que estamos, enfim, a saber, a conhecer. Talvez, também, seja essa angustiante sensação o caldo-de-cultura das teorias da conspiração e da estranha atracção que sobre nós elas exercem.Tudo isto se sabia já há um século (pelo menos) desde que Edward Bernays, sobrinho de Freud e guru da propaganda do período entre as duas Guerras, que inventou a expressão relações públicas, falou (d)aqueles que manipulam este elemento não visto da [moderna democracia] (e) constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder dominante (…) Somos governados, as nossas mentes são moldadas, os nossos gostos formados, as nossas ideias sugeridas, em grande medida por homens de que nunca ouvimos falar…

Mas agora, esse governo invisível juntou ao seu arsenal de manipulação algumas armas de destruição maciça: a televisão e, sobretudo, a internet, esse sucedâneo do catecismo eclesial onde buscamos a orientação e a sabedoria, que vigia já os nossos hábitos, as nossas mensagens, as nossas preferências, decide já aquilo que «queremos» ou quem deveria ser nosso «amigo».

Sou daqueles que se recusam a banalizar a palavra fascismo enquanto categoria da ciência política, consciente de que se tudo é fascismo, nada é fascismo. Mas também não circunscrevo o qualificativo ao fascismo clássico dos anos 30, afastando liminar e sistematicamente o conceito quando não está presente um ou mais das características do regime que criou o nome. As razões são semelhantes: se fascismo era apenas o italiano mais um ou outro dele completamente decalcado, então ele torna-se inútil como instrumento de análise.

Mais: julgo que há um fascismo insidioso e «quintacolunista» que se está a infiltrar nas malhas das nossas sociedades modernas e desenvolvidas, a conspurcar conceitos e princípios, a deteriorar paulatinamente a democracia.

Veja-se a repetição reiterada de algumas qualificações que têm tudo de arbitrárias e outro tanto de falacioso, apresentadas como truísmos ou axiomas que já não necessitam de demonstração nem de explicação.

Quem são os «maus» e os «bons» em cada uma das guerras que pipocam pelo mundo, nos conflitos ou nas grandes controvérsias; quando é aceitável utilizar uma arma determinada, um certo método de violência; quando «je suis» qualquer coisa e quando «je ne suis pas», quando mentir é um crime crapuloso digno de pena máxima ou é um acto de subtil inteligência política, qual a posição admissível sobre os cortes de pensões e as que são próprias de párias ou de sinistros esquerdistas.

Todas essas distinções podem e devem ser estabelecidas mas é malsão que o sejam sem explicação e sem crítica, só porque «deu na televisão» ou porque ouvi um qualquer pivot de telejornal anunciá-lo com o ar circunspecto e entendido de quem conhece os arcanos.Nunca foi tão necessário lembrar George Orwell: «Em tempos de mentira universal, dizer a verdade é um acto revolucionário».

Sim, há um perigo de fascismo no ar.

E a manipulação das mentes é um dos sinais.

5/4/2017

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