VOUS N’AVEZ PAS LE MONOPOLE DU CŒUR !

Em 1974, esta réplica de Valéry Giscard d’Estaing durante um debate televisivo, desarmou completamente François Mitterrand que, candidato da esquerda, insinuava que a direita e, no caso, o seu presumptivo chefe, o aristocrata fleugmático e altivo Giscard não nutriam pelo petit peuple qualquer sentimento de simpatia ou compaixão.

A frase foi, para muitos, uma das principais razões da derrota da esquerda e ficou a fazer parte da história política francesa = e deus sabe como ela é fértil em mots célèbres.

Sabemos, depois de Freud e dos surrealistas, que a associação livre de ideias releva do inconsciente e sabemos, até, da importância que um e outros lhe atribuíam nos processos analítico e criativo.

Não vou, por isso esmiuçar porque é que porque é que ela me ficou a martelar a cabeça, quando comecei hoje a passar avista apressada pelas gazetas e a ouvir pés-de-microfone, semi-deuses do kumentariado, analisadeiros políticos e outros editoraleiros que, como num coro bem ensaiado, verberavam severamente a atraso com que o PM pediu desculpas às vítimas dos trágicos incêndios que que nos enlutaram, o que aconteceu mesmo, segundo alguns, com manifesta relutâcia.

Costa tem, afinal, o monopólio do coração, mas o do cœur d’airain, o que lhe bate no peito é um pedaço pedra, um calhau duro e insensível.

À sua frente, implacáveis mas derretendo-se em ternura, a tubamulta das sensibilidades e dos afectos, o deputado Hugo, o economista João Ferreira Gomes e até, atrevo-me a pensá-lo, corações de manteiga como os de Vitor Gaspar, Maria Luiz Albuquerque e restantes membros do governo de Passos, tão atentos às desgraças, à fome, à emigração aconselhada e a outras “pieguices”.

Antes que me caiam em cima varapaus e insultos, quero dizer que não comparo os desmandos e insensibilidades provocadas pelo governo Passos Coelho, o mais deletério e destruidor da democracia com o horror inominável das tragédias a que assistimos nas últimas semanas. Afirmo, solenemente, que me sinto em comunhão de dor com as famílias das vítimas, com os seus próximos e com aqueles que tentaram salvá-los ou minorar o seu sofrimento.

Declaro, também, que considero, agora, que o PM deveria ter mostrado publicamente a sua empatia e, porque não, ter acompanhado ou ter-se mesmo antecipado, ao PR no pedido de desculpa que este formulou.

Mas outra coisa é esta avalanche hipócrita, esta frente rasteira e revanchista, este bombardeamento de coices de jumento num leão que pressentem ferido.

É um espectáculo lamentável, aquele a que se prestam politiqueiros de segunda linha, escribas mais ou menos encartados, cínicos notórios, gentinha.

Voilà.

19/10/17

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