(EM) (IN) Segurança
É tão estranho pensar que estamos lutando pra sobreviver, mesmo com a certeza sombria da morte. Em vida, queremos ser reconhecidos, realizados, auxiliados por sonhos e objetivos. As outras pessoas se tornam alicerces para que não fiquemos sozinhos. Aliás, pior do que lidar com o fim da existência é, enquanto nela, ficar sozinho.
O silêncio dá agonia, a reza se perde em distração e o sono parece te deixar sempre mais cansado. O estado da indiferença é o pior que o ser humano enfrenta. Enquanto feliz com vida, com toda a positividade e anseios, há o risco de se iludir e cair na profunda tristeza, onde tudo e todos parecem estar contra você. Mas em ambos os estágios, da felicidade extrema e da dor que nunca parece passar, ainda há motivos pelos quais as pessoas se sentem vivas. Há sentimentos reais: de raiva, dor, amor, felicidade.
Mas não há momento pior que a indiferença. Nesse estágio, você não consegue demonstrar a dor que sente. As pessoas imaginam que você esteja bem. E você deixa de saber como mostrar que não. Na indiferença, você não sente graça das piadas. Até mesmo perde o jeito de fazê-las. Não sabe escrever, ver, entender, conversar. Porque qualquer atitude tangível exige sentimentos, desses mais profundos e, por natureza, intangíveis.
Estar indiferente é perder um pouco a vontade de provar ao mundo. Isso não é ruim. Ruim é ter pouca vontade para provar do mundo. Na indiferença você vive a montanha russa de acordar achando que é feliz e dormir se sentindo inútil.
As pessoas propõem a fé (que você nunca perdeu), o circo (mas você nem se lembra da última vez em que riu de si mesmo), o amor (mas você já não acredita tanto na existência dele. Não quando todo mundo parece interessado em se mostrar apaixonado pelas coisas e pessoas que suprem seu medo pela solidão) e, por fim, não sabem mais o que dizer. “Fique bem!”, “Tudo vai dar certo!”, “Só você pode fazer a diferença pra você mesmo”.
No fim, todos temos medo de cair na indiferença. Nessa que julga a tristeza do outro como drama, a gratidão como brega e os sentimentos como guarda roupa. Como se você escolhesse com qual sairá hoje. É enquanto felizes ou tristes demais que permitimos as pessoas ao nosso redor cair na indiferença. Essa necessidade insana de mostrar-se feliz ou de vitimizar-se.
Todo mundo se cansa das vítimas e dos palhaços. Olhar ao redor, entender o pedido de socorro do outro é a forma da felicidade sincera. Nem sempre o palhaço faz a piada porque está com vontade e nem sempre a vítima quer ser rotulada assim. Pior que a morte física é a morte pela indiferença. Você simplesmente para de existir. E não se dá conta. Só temo! Por mim e por todos nós.