Prezado eu, você é gay pra caralho! E tudo bem

Às 00:34, lembrei de um dos meus eu’s. E não é um eu muito distante. Um eu de 4, 5 anos atrás, com quem evito contato.

E aqui passo a falar pra ele.

“Oi.

Hoje me peguei pensando em você e decidi me levantar pra escrever. Até as músicas que escutava, decidi ouvir também. Parece que coloquei meu olho num cesto cheio de cebolas. Eles ardem, querem chorar. Injustiça com você em prantos aí se escondendo embaixo do seu cobertor.

Você é gay.

Sim! Caralho, você provavelmente deve estar sentindo um frio na espinha enquanto lê isso. Mas ó, não tem problema nenhum em ser assim! Mas tem pra tanta gente né? Talvez seja medo das pessoas descobrirem e ainda mais desconforto por perceber que elas já sabem.

É muito complicado ter que interpretar um papel todos os dias que não se encaixa contigo. Eu sei. Você não beija ninguém, não tem nenhum caso pra contar quando a turma se reúne pra falar de um casinho aqui e ali. Sabe-se Deus quantas crushes (é palavra do futuro, relaxa!) “cê” inventou pra não passar vergonha.

Se apaixona sem poder dizer. Escreve cartas em que nomes e gêneros se invertem. Deixa de usar camisas que gosta. E quantas mesmo foram as piadinhas com seu colega gay pra esquivar a atenção de você? Evita papos, bandas, músicas, roupas, assuntos. Se evita pra ser parte da expectativa. De todo mundo. Enquanto cê tá sozinho por não se conhecer direito.

Lembra quando disse que odiava o escuro? Tem razão. É a hora que suas paixões ganham nome, que pesquisa as roupas, escuta as músicas, que imagina sua liberdade. E eu sei que liberdade pra você não se trata do conceito literal. Você só queria aprender a dormir sem a coberta na cabeça. Sem ter medo do escuro. Cê tem muito medo do escuro. Nele talvez você fique claro. Você tem muito medo de você.

Eu sei. Parece que não tem saída. Você reza, pede, escreve, rasga. Mas olha que louco! Eu estou postando aqui na sua timeline do futuro um texto que nem sei se você vai ler até o fim. Eu queria poder estar do seu lado, segurando a sua mão no dia em que decidiu que não aguentava mais.

Queria ter sido a pessoa a te fazer companhia nos seus momentos de solidão. No dia em que cê decidiu que ia guardar esse segredo o resto da vida contigo. Quando sentiu tanta vergonha que escreveu um texto sobre o quanto se odiava. Do dia em que sua turma se reuniu e começou a gritar que cê era gay. G.A.Y. 3 letras que te assustam tanto.

Gay=escuro pra você. Porque tem muita gente a sua volta que não entende o que é isso (sorry! mas isso não muda muito aqui no futuro). Que te fazem de piada, que comentam pelas costas. Por que você né? Quantas foram as vezes em que pediu pra ser diferente?

Mal sabia que ser diferente é o que você precisava pra ser exatamente você. Obrigado por reconsiderar todas as vezes em que pensou em desistir.

Não. Seus pais não vão te abandonar (e você não precisa sentir medo de que eles morram e descubram no céu e te odeiem pra sempre). Não! Não precisa escrever cartas pra eles de despedida. Seus amigos não vão fugir também. Pelo contrário, eles vão te amar tanto porque vai ser claro o quanto cê mudou e construiu uma personalidade. Teu pai vai dizer que é seu melhor amigo, sua mãe vai dizer pela primeira vez que te ama (e isso é lindo! Ainda que nem todo mundo tenha a mesma sorte e que cê precise reconstruir TODA a relação)

É. Tá certo que 20 anos da sua vida sendo outra pessoa vão te tirar muitas coisas. Você vai começar a redescobrir o que gosta de assistir, ler, ser, vestir e pasme…comer! Lembra quando cê ficava no cantinho das festas, olhando pro seu amigo pegando todas e cê lá com um copinho disfarçando que tava tudo bem? Alô, alô, rei da baladinha. Cê vai beijar muito. Vai se apaixonar, vai quebrar a cara. Vai sair de mão dada. Vai dar e ganhar presente. Vai dar e receber cartas. Vai transar. Cê vai transar, mano!

E talvez você não acredite porque tudo isso aí faz parte de uma prece repetida sem cessar esse tempo todo. Você vai namorar. Vai encontrar o amor da sua vida e vai reconhecer quando ele chegar. Vai lutar pelas causas que te causam e vai militar quando alguém apontar que cê é diferente por algum motivo.

E quando tudo parecer normal, vai olhar pra trás e pensar: caralho, podia ter sido mais fácil desde o início. Não! Não é opção. É assim que nasceu. E ponto. Você vai enfrentar preconceito, vai viver sozinho com seus R$ 400,00. Vai dormir na casa de amigo até que a poeira abaixe na sua casa. E vai perceber o tanto de gente que só precisa de uma oportunidade pra dar o grito que você deu. Repete essa última frase e nunca mais julgue alguém que não consegue/pode se assumir.

Você vai se sentir você. E até vai gostar do escuro. CARALHO! CÊ VAI ENCONTRAR UMA EMPRESA EM QUE CÊ PODE IR PRA CONFRATERNIZAÇÕES COM SEU NAMORADO DE MÃOS DADAS.

Vai fazer amigos gays. Conhecer o mundo em suas variações. As pessoas e suas versões. Trans, lésbico, gay. Drag, bebê!

Vai escutar gente cagando pela boca pra falar de você. E talvez tenha gente rindo ainda. Talvez tenha gente chocada e até orando pelo que você se tornou. Deixando de te seguir nas redes sociais. Mas posso te falar… com todo mundo te aplaudindo, cê morre de medo do escuro. E quando cê amar cada pedacinho dele, vai ter certeza de que não importa quem ri no claro, se você gargalha de felicidade na escuridão total.

Eu só queria te dar um abraço e mostrar tudo que você vai ser. Eles dizem que seu Deus julga o que você é. Mas ele tá te dando exatamente o que cê tá implorando aí no seu odiado escuro.

Você não vai precisar mais arrastar o colchão, porque vai poder segurar forte a mão de quem ama pra dizer que se orgulha do que cê é. E se orgulhe mesmo. Orgulho a ponto de subir num ônibus todos os dias com broche da bandeira gay.

Bem gay.

Cê vai se tratar no gênero feminino vez ou outra e vai rir disso. Vai entender que não existe jeito gay. Existem pessoas, que como pessoas que são, trazem diferenças. Gays ou não.

Por fim, você vai amar ser diferente.

Cê é muito gay, cara. E vai se orgulhar cada vez que falar isso e perceber que se a paz que surge daí.

Tem gente que fala que você vai pro inferno pelo que é. Mas eles não imaginam que você já vive aí tentando ser o que eles querem. O inferno são os…à la pequeno príncipe, são os adultos sendo adultos.

Gay, baitola, viadinho, queima rosca… não importa como eles decidem te nomear, se consegue ver na sua essência o que realmente importa: você.

Prazerzão, Adilson de Souza Braga Júnior. Gay e feliz pra caralho!

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