O que te move?

Confusa, encontrou refúgio em seu próprio vazio. Mas o seu vazio pulsa — nele cabem ideias e mais ideias, dúvidas, sentimentos e paixões: todas desarticuladas. Vazio pulsante. A falta de articulação e incompletude são, ironicamente, um sopro de vida. Um remédio contra as certezas estáticas, a maioria com fortes tendências a revelarem-se falsas. O seu único apego agora era aquele caloroso vazio. Aqueles questionamentos, enquanto não respondidos, eram seu motor. Não tinha pressa em responde-los, por isso por vezes colocava-os no bolso. Quando preciso e conveniente, tirava. Sentia os açoites de suas inquietudes, deixava que as dores a lembrassem de que estava viva. A dor faz vibrar quando toca a pele, assim como quando toca a alma. Vibração move — percebia mais uma vez, a vida é tão bela que é inevitável ser feliz.

“Dor é aprendizado”, o tempo tatuou essa frase em seu espírito, e por isso, ela reproduziu a mesma frase acima de seu peito, para nunca esquecer. Podia agora dizer: era uma mulher com marcas do tempo na alma, de tinta na pele. Nada a impedia, nada a prendia, nada a segurava — seria esse o sabor da liberdade? Projetava os holofotes da realidade em seu próprio ser, era a estrela do seu show. Ainda assim, fazia-se também inevitável, mesmo sendo a luz do seu viver, todas as noites despia-se de si mesma e tirava um momento para sentir os seus sonhos. Sonhar. Admirava uma singular constelação a brilhar em um céu de tantas outras estrelas, e finalmente nela incidia uma luz alheia. A menina tinha a estranha certeza de que enquanto contemplava aquela constelação, ela também a contemplava. Ambas em silêncio. Silêncio gritante, que fazia girar as hélices da vida. Revelando toda sua poesia.

31–10–2015

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