Ex-gay ou hétero não praticante. É possível?

Foto/Reprodução: James Franco e Zachary Quinto em cena de “Eu Sou Michael”.

Já vi ex-BBB, ex-Serasa (com recaída, claro, porque puxado manter mesmo), ex-drogado e até ex-micareteiro, mas ex-gay só vi no romance dramático ou drama romanceado I Am Michael (“Eu Sou Michael”, título em português), de Justin Kelly, que, embora tenha sido lançado em 2015, se faz atual ao reacender a polêmica da cura gay através da religião. E se não é para ter polêmica, o ator James Franco nem protagoniza.

Será que a fé é capaz de trazer a “cura” para o entendimento sexual tido como congênito, e não uma seleção natural do ser humano, ou pior, uma anomalia? No caso do jornalista e defensor de causas LGBT, Michael Glatze (James Franco), sim, é possível. Com diagnóstico negativo à herança da doença de seu pai, o militante começa uma busca incessante por respostas em religiões que justifiquem o que ele considera um milagre divino, colocando em xeque o seu relacionamento homoafetivo com Bennett (Zachary Quinto), bem como a sua autonegação, para tornar-se pastor cristão e assumir ideologias da heteronormatividade à sombra de desejos ainda ocultos.

Rebekah (Emma Roberts) se encanta com o ex-gay Michael Glatze (James Franco).

Eu Sou Michael é baseado no artigo “My Ex-Gay Friend” (“Meu Amigo Ex-Gay”, em português), de Benoit Denizet-Lewis para a revista The New York Times Magazine, uma narrativa do escritor às convicções arbitrárias sexuais e religiosas do amigo Michael Glatze, de São Francisco (EUA).

Claro que, no cinema, na TV ou no teatro, há licença poética para tais visões fundamentalistas. Contudo, no mundo real, os desejos masculinos ganham formas, práticas e denominações como vertentes do sexo entre homens, porém, mascarados, como gOy (é tipo “Mãe, vou ali sarrar um parça, mas volto antes da penetração, valeu?!”) e bromance (um romancezinho de leve, na encolha, entre “brows”, até casados com mulheres, tá ligado?! Mas suave!). Não se apresentam como gays ou bissexuais, e sim em variáveis que fujam à estereótipos ainda fragilizados pela sociedade ou que garantam a eles um arerê a mais na pipoca do carnaval de Ivete.

“Cinema Colorido”

Inevitável não recordar Orações para Bobby, um clássico do gênero LGBT, de Russell Mulcahy, inspirado no emocionante drama real de um jovem que vê a descoberta de sua homossexualidade ser subjugada em ritos religiosos e sessões de terapia, por pressão e devoção de sua mãe. E não há jeito melhor de encerrar este post com a célebre frase dela em clemência à memória de seu filho e de todos os pais cegados por deturpações do homem, falho, às mensagens bíblicas:

“(…) Então, antes de ecoarem Amem em sua casa e em seu local de adoração, pensem. Pensem e lembrem-se que uma criança estará ouvindo”.

E viva a sua essência, e não a de outrem.

* Adolfo Ferraz é jornalista, criativo em marketing digital e jura que agora é blogueiro. Artigo originalmente publicado no Tô Sem Louça.

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