“Susanna and the Elders” (Gentileschi, 1610)

Fragilidade romantizada — uma análise de best-sellers juvenis para mulheres

Quando comecei a ler, o tipo de literatura que me chamou mais atenção foram os famosos e desdenhados best-sellers juvenis voltados ao público feminino por serem mais fáceis de ler, e eles me introduziram de maneira magnífica ao mundo da leitura. Ficção fantástica, realismo mágico, esses eram os tipos de livros best-sellers que eu gostava de ler. Não que toda ficção fantástica e realismo mágico seja um best-seller juvenil do tipo Crepúsculo, mas era esse nicho que me interessava. Porém, o tempo passa e a gente amadurece nossa leitura, e acabei deixando esse tipo de literatura de lado.

Ultimamente, me peguei pensando nesses livros que eu costumava ler com tanta fervorosidade, que eu devorava em uma semana ou menos um livro de 300 páginas ou mais sem ao menos reclamar. Comecei a pensar sobre o que eles tinham em comum, e por qual motivo eles sempre me chamaram tanto atenção. E o resultado não foi nada positivo.

Há uma característica comum nesse tipo de livro voltado ao público feminino, que inclusive também é muito comum em outros tipos de ficção, mas que virou um traço muito usual nesse nicho literário: a fragilidade feminina.

“Mas Adriana, isso não é novidade na literatura em geral, as mulheres sempre foram representadas assim.”

Sim, isso é verdade. Mas o que você faz para que garotas de 14–16 anos, ou menos, comecem a ler? Você precisa colocar algo que chame a atenção delas, certo?

Sim.

E como as mulheres são educadas?

Para romantizarem a própria fraqueza e se conformarem em serem tratadas como cidadãs de segunda classe. Para serem fracas, submissas, frágeis, as donzelas em uma busca eterna pelo príncipe encantado.

Logo, o que você coloca em um livro voltado para o público juvenil feminino?

Príncipes encantados, figuras frágeis femininas e donzelas em perigo.

Por mais que tenhamos diversos livros desses com personagens principais femininas, 99% são personagens que dependem diretamente da existência de um personagem masculino para sobreviverem. Exemplos?

Lucinda Price, da série Fallen, é uma garota introvertida, atormentada por sonhos estranhos, culpada pela morte do ex-namorado em um incêndio e por conta disso é tida como piromaníaca. Ela é enviada a um reformatório, um lugar onde as pessoas olham torto para ela, onde ela se sente em perigo. Logo ela se apaixonada à primeira vista por Daniel, um cara misterioso que a despreza e a destrata sem ter motivo algum para isso.

Nora Grey, da série Hush Hush, é descrita como uma menina madura e responsável, que sofre bullying na escola, e que se apaixona perdidamente por um completo estranho à primeira vista: Patch Cipriano, que também a despreza logo de cara.

Isabella Swan, da série Crepúsculo, é uma garota melancólica e introvertida que se muda para uma cidade do interior dos Estados Unidos e vai para uma escola onde se sente acuada por não conhecer ninguém, perdida e frágil, e onde se apaixonada perdidamente por um cara que também a despreza logo de cara: Edward Cullen.

As três possuem em comum todas as características. Além disso, também se apaixonam “à primeira vista” por garotos que logo de cara as tratam com desprezo. Mas elas não desistem, insistem em tentar se aproximar do tal cara em questão, e por mais que se machuquem com as atitudes dele, não importa, elas querem estar perto dele, porque é tudo o que importa a elas no momento: estar perto de um cara que as despreza, mas que elas amam perdidamente, então está tudo bem. Elas, logo que “encontram o amor de suas vidas”, esquecem de qualquer coisa mais que apareça ou tenha aparecido em suas vidas. Tudo se torna um plano B, pois o mais importante é conquistarem e decifrarem o cara misterioso que elas tanto amam e que tanto as trata mal. Depois de muito insistirem, elas conseguem namorar o tão sonhado e inalcançável garoto, que por sinal é o garoto mais cobiçado da escola, e suas vidas se voltam a ele. Viram meros fantoches de um personagem masculino, e isso também é uma característica comum, o abuso psicológico e a despersonalização das personagens femininas. Elas não são mais elas, elas são o namorado delas, elas aguentam e perdoam toda e qualquer atitude grosseira por parte deles, elas se sentem bem por serem vigiadas 24 horas por dia, por terem suas vidas controladas, se sentem bem, pois é o amor da vida delas, afinal, que está fazendo isso. Nada mais importa. Suas personalidades são sugadas por um personagem masculino que, mesmo que por vezes não seja o principal, se destaca mais. Este é o personagem viril, corajoso, que salva a vida de uma donzela perdida na vida. Oh, pobre moça! Elas, também, não existem sem o tal personagem masculino. A história começa a girar toda em volta da vida do pobre personagem masculino, pobre e sofrida alma desamparada, que precisa de ajuda e que justifica todas as suas ações para com sua namorada com suas dores e seu passado, porque não importa o quanto machuquem suas namoradas, elas que se fodam, elas têm que aguentar o que o macho fez porque ele sofreu, oras, que coisa! Que absurdo exigir o mínimo de humanidade, não é mesmo?

Ah! Sem contar nos triângulos amorosos que possuem esses livros, porque já não basta um controlando, precisa ter outro em cima da personagem pressionando-a a ficar com ele, competindo com o namorado da personagem para ver quem fica com ela sem que ela nem ao menos tenha a possibilidade de dizer o que sente e pensa. Afinal, não é necessário, não é mesmo? Dois homens lutando pelo amor dela, ela deveria estar feliz! Bom, não é bem assim.

“Ah, mas isso é só um livro, não é real. Esses personagens não são reais, nada disso é real, esse tipo de relacionamento não existe.”

Existe sim, e se chama: relacionamento abusivo. Esse é o clássico relacionamento heterossexual, o relacionamento romantizado em filmes, novelas, fotonovelas, quadrinhos, livros. O tipo de relacionamento que mulheres são ensinadas a aceitarem, o tipo de homem que mulheres são ensinadas a amarem e a se deixarem ser dominadas por, o tipo de situação que mulheres são ensinadas a romantizarem desde muito novas através de todos os veículos de comunicação e da família. Mulheres não são ensinadas a darem importância às suas existências, elas são ensinadas a se colocarem em segundo lugar e a coexistirem perante a figura masculina. E isso vai se refletir em todo e qualquer meio voltado a mulheres, de modo a reforçar essa ideia e a romantização da mesma.

“Ah, mas esses livros tem um público né, não é pra você esses livros, não fica implicando porque é pra quem tá começando a ler, poxa.”

A questão não é implicar com um tipo x de literatura, a questão é: esse tipo de romance, que romantiza abuso e desdenha da figura feminina, não é produtivo para nenhuma mulher, para nenhuma menina nova que está começando a ler agora. O público para esse tipo de literatura são mulheres justamente por se tratar de um tipo de escrita que é focada na inferiorização da mulher e de sua coexistência, é voltado a reforçar essa ideia de submissão e fragilidade. Mulheres não precisam ler isso para começarem a gostar de ler, essa não tem que ser a porta de entrada de mulheres na literatura. Homens começam a ler com livros onde os personagens masculinos são exaltados, afinal, desde criança eles são ensinados que são superiores, heroicos e bravos. Então porque não paramos de focar em romances água com açúcar onde mulheres são claramente abusadas e começamos a produzir materiais onde mulheres são seres humanos que existem por si só, sem dependerem de uma figura masculina no livro?

“Ah, mas a maioria que escreve esse tipo de livro é mulher, e aí, onde tá seu deus agora?”

Sim, a maioria que escreve é mulher porque é o que o mercado literário compra de mulheres escritoras, é esse tipo de livro que eles se interessam que mulheres escrevam. Eles não acreditam no potencial feminino, minam a criatividade das escritoras. Além disso, também tem o fator socialização, que contribui muito para que os romances escritos por mulheres possuam esse tipo de relacionamento, mas isso não isenta a crítica de ser feita, muito pelo contrário, ela só se torna ainda mais urgente.

“Ah, então vamos parar de ler essas mulheres, vamos difamar a escrita e os livros delas!”

Não, não, não. Primeiro que a escrita dessas escritoras é excelente, cativante, o problema é o que é abordado. Devemos estimular escritoras a produzirem livros que não sejam somente romance, devemos estimular que cada vez mais mulheres ocupem o mercado literário a fim de termos uma diversidade maior de temas escritos por mulheres.

Porém, antes disso, devemos parar de ensinar às nossas meninas que elas devem aceitar qualquer tipo de abuso, que elas devem se contentar em serem tratadas como cidadãs de segunda classe, que elas devem se contentar em produzirem apenas o mínimo e desprezarem todo o resto que há em suas capacidades intelectuais. Seria isso o fim dos romances? Não sei, não posso dizer, mas seria bom. Nossas meninas não têm que ler romances melosos com casais onde acontece muito abuso e despersonalização, elas não precisam idealizar um relacionamento assim. Elas precisam ler coisas que as encorajem a serem mais, a irem longe, a desenvolverem suas capacidades intelectuais. Meninos não leem romance, eles não precisam deles, então porque achamos que nossas meninas precisam? Porque precisamos de romances heterossexuais para nossas meninas, onde a mulher é tratada apenas como um mero adereço do homem? A resposta é que não precisamos, nenhuma mulher precisa.

Precisamos de uma literatura que represente algo que não seja a fragilidade feminina que o patriarcado nos impôs goela abaixo. Precisamos de livros com menos romances heterossexuais abusivos e mais histórias repletas de aventura e tudo mais, sem a necessidade de existir um romance ali para validar a existência da personagem feminina.

Quanto menor for a quantidade de meios que incitem a romantização de abuso, quanto menor for a quantidade de meios que perpetuem heterossexualidade compulsória, melhor será para todas as mulheres.

Que o mercado literário melhore para todas nós, afinal.