Algo sobre GIRLS e novos adultos

“Kids are super easy… It’s being an adult that’s hard.” Essa definitivamente é a minha citação preferida do seriado, e a que acho mais impactante também. Muito mais do que aquela em que Hannah afirma ser a voz de sua geração, bastante citada pelos críticos da série. Inclusive, a minha citação preferida não é dita por Hannah Horvath, protagonista desta série da HBO que se encerrou em julho deste ano, mas por Mira, ou melhor, pela atriz que interpreta Mira no filme que o ex-namorado de Hannah está produzindo e que, na verdade, é um pseudônimo para ela mesma, Hannah Horvath. Na cena desse diálogo Hannah fala com Hannah, é o momento em que a personagem conversa consigo mesma ou com uma das imagens de si mesma — aquela feita por seu ex. É um dos poucos momentos em que há algo bastante interessante a respeito da montagem cinematográfica de Girls que, em grande parte das vezes, revela sequências bastante forçadas, problemáticas, simplistas. Vou voltar um pouco para falar o porquê de, mesmo assim, estar escrevendo um texto sobre a série.

Comecei a assistir Girls em 2014 quando já havia duas temporadas lançadas. Comentava o que achava com uma colega de trabalho que também a assistia, mas que curiosamente detestava a série. O que mais incomodava essa colega eram duas questões e a primeira delas eram justamente os problemas de sequência. Em um dos episódios, por exemplo, Hannah aparece com uma crise de ansiedade que desencadeia uma mania de manter os ouvidos limpos. Por causa disso, acaba com um cotonete entalado no ouvido, o que gera cenas bastante aflitivas. De fato, algo tão problemático não poderia ter passado desapercebido nos episódios anteriores, mas passou. E Girls não para por aí com esses “problemas” de sequência que, depois de terminar os sessenta episódios das seis temporadas, pensei que já não importavam mais. Talvez seja o estilo da sitcom que se difere da seriedade das séries que prezam enormemente pela sequência encadeada. Então, consegui rebater para mim mesma a primeira crítica dessa colega. A segunda crítica recaía no fato de ela achar que os acasos que se passavam na vida de Hannah eram totalmente inverossímeis. Levei muito mais tempo para refutar essa questão. Agora que terminei a série, muito mais do que antes, percebo o quanto, ao contrário de minha colega— que saiu da casa dos pais para se casar bem antes dos trinta, comprou um apartamento e trabalha em agência de publicidade—, me identifico com as desaventuras da protagonista. E, certamente, não apenas eu, mas, como Hannah mesma afirmou, toda uma geração.

É estranho pensar, porém, que essa ex-colega que era um ou dois anos apenas mais velha do que eu não se inclua no meu círculo geracional. Afinal, geração é o conjunto de todos aqueles de faixa etária próxima e nascidos em um mesmo contexto histórico. Contudo, não existe apenas uma geração para cada época, mas várias gerações. Meus pais eram jovens durante os anos setenta e nem por isso eram hippies e adeptos do amor livre. Meu pai, nos anos setenta, passava fome no sertão de Pernambuco. Minha mãe brincava com uma boneca de palha na roça paulista. Para falar de geração tem que se falar não apenas de contexto histórico, mas também social, cultural e não sei mais quantos contextos que poderiam servir para colocar as pessoas em suas respectivas caixas geracionais. Meus pais, devido, principalmente, a sua situação social, estavam excluídos da geração do rock’n’roll e da tropicália.

Quando penso no universo de Girls, em que quatro amigas muito bem nascidas se encontram em Nova Iorque para buscar seus sonhos sustentados a distância pelos pais, também encontro importantes barreiras que nos separam. Não sou bem nascida, nem o são grande parte dos meus amigos, e nunca pude recorrer aos meus pais para me auxiliar financeiramente, especialmente depois de ter deixado a casa deles, aos dezoito anos. Mas, sim, deixei minha casa aos dezoito anos para buscar meus sonhos. Não fui para Nova Iorque, mas vim para São Paulo para onde vieram também alguns dos meus amigos do litoral.

E nessa vida de jovens sonhadores e questionadores, sobretudo questionadores, na cidade grande, muitas peripécias acabam acontecendo. Acordar na casa de um médico bem sucedido, ir para festas underground, falar com pessoas aleatórias, namorar com freakies, sofrer com quiprocós de relacionamento entre amigos e namorados, acasos comuns na vida de Hannah, me são bastante familiares. Não só para mim, mas para todos os que me acompanharam nesses mais de dez anos de São Paulo. Dar-se conta de que a faculdade estava acabando e que aquilo era um sinal de que a vida teria que mudar, mas mudar como?, também foi algo bastante pesado. A dificuldade de se tornar uma adulta foi latente. Tínhamos toda a independência, mas não queríamos crescer.

O final de Girls foi muito bom. Em vários sentidos (AGORA TEM SPOILER, CORRA SE NÃO QUISER SABER O FINAL). As quatro amigas não puderam continuar mais amigas. A adolescência estendida chegou ao fim, seus rumos não eram mais os mesmos, tinham que decidir o que iam querer dali para a frente, tendo em mente que o a frente era a vida adulta. A cidade de Nova Iorque também não era mais o sonho a se realizar. Hannah a abandona para ter uma profissão no interior. E, mais lindo de tudo, a grande sacada de Lena Dunhan, atriz que interpreta Hannah e que é também produtora e roteirista de Girls, é dar a Hannah um filho. Não é o filho de um namorado ou mesmo de alguém que Hannah conheça. Hannah engravida de uma relação casual como essas tantas que rodeiam nossas vidas de sonhadores questionadores. E esse acaso é o banho de água fria que redireciona a vida da protagonista: não é o filho que a faz crescer. O medo de que a série caísse num grande chavão não se realizou. Hannah foge de seu filho, não o acolhe quando ele chora, acha que ele a odeia, ainda que seja apenas um bebê clamando pelas necessidades mais básicas. A rejeição ao leite materno por parte do bebê é a simbologia dessa negação do bebê de sua mãe mais do que perdida nessa nova situação. E eis que surge a verdadeira (falta de) moral da história de Girls. Não é um casamento, um trabalho, uma casa ou uma gravidez que faz essa geração, estagnada na adolescência pós-vinte anos, enfim entrar na vida adulta. É difícil crescer, porque os sonhos de gente crescida não são os nossos. Definitivamente não queremos o mesmo que nossos pais e, mais que isso, não queremos o que aquela nossa ex-colega de trabalho quer (como Hannah que trabalhou em uma agência por um período na série, a publicidade na minha vida ficou no passado-mais-que-pra-lá). Nossos sonhos estão perdidos nas grandes cidades, em suas esquinas perversas, em seus prazeres enganosos, e quase fizeram com que nós mesmos nos perdêssemos na ilusão de tentar encontrá-los.

Recomendo a série principalmente para quem sabe o que é estar sempre em busca de não se sabe o quê e nem quer saber o que para depois não ter porque se culpar. Ou seja, dos novos adultos.