Conheça Tia Conça, a enfermeira que contou com a ajuda de Santa Dulce para abrigar portadores do HIV

Adriana Ferrao
Nov 7 · 3 min read

Seduzia as pessoas com sarapatel e mocotó. Tia Conça nunca foi dona de restaurante, mas com o tempero de sua comida baiana, em meados da década de 80, junto com Santa Dulce dos Pobres, ajudou a abrigar dezenas de pessoas em situação de rua e portadoras do vírus HIV. Tirava do próprio bolso o aluguel dos quartinhos que acolhia os menos assistidos.

Dona Conceição à noite nas ruas de Salvador — Foto: Divulgação Bocão News

Formada no curso técnico de Enfermagem, Maria Conceição Macedo, hoje com 75 anos, dividia a atenção entre os mais pobres e o trabalho no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS). A habilidade de cuidar dos doentes vem desde a infância, daí o início do que se tornou a Instituição Beneficente Conceição Macedo, localizada no bairro de Nazaré, em Salvador.

Antes mesmo do abrigo se tornar uma realidade, já fazia caridade em localidades da Cidade Baixa, na companhia da freira que se tornou a primeira santa brasileira. Por amor, diz ela. Dona Conceição foi convidada e assistiu à canonização da freira na cidade do Vaticano, em Roma. “Nunca assisti a uma canonização, para mim foi tudo maravilhoso”.

E completa: “Conheci Dulce na década de 80, quando eu trabalhava nos Hospital. Os pacientes atendidos lá eram os mesmos que viviam na rua, acolhidos por ela”. Assim como Santa Dulce, Conceição nunca foi rica. Assalariada, complementava a renda com a venda de alimentos em pontos de táxi e ônibus. “Só queria ajudar. Saía do hospital para preparar comida e vender à noite nas ruas. Era como pagava os aluguéis e medicações”, recorda.

Sabia que, para captar recursos, haveria a necessidade de formalizar o que, até então, se limitava á boa intenção, por isso, decidiu criar a instituição. Para que assim, pudesse captar recursos junto á iniciativa privada ou até mesmo a órgãos públicos, passando a apresentar-se enquanto um grupo constituído. “ A instituição só foi fundada quando conheci o Padre Alfredo “, mas, desde o momento que eu comecei a atender as pessoas, fazia por amor. Para conseguir a casa e o carro tinha de ter uma ONG”. O que de fato deu certo. Consegui doações que possibilitaram investir até em um carro para transportar os doentes para o hospital sempre que havia necessidade.

Mesmo com toda dedicação à causa, não deixou de lado a vida pessoal. Casou e teve uma filha. “Já tive casa quando meu marido era vivo, tínhamos um apartamento, uma vida diferente da que tenho hoje. Hoje sobrevivo da minha aposentadoria”, detalha a soteropolitana, que atualmente vive em um asilo para idosos.

Não compra roupa cara, as “de bater”, diz, encontra na área comercial da Barroquinha, Centro de Salvador. “Sabe onde? Na Casa da Barroquinha, do lado tem uma casa de carne”. O resto das vestes é fruto de doações. “Vivo de ponta, mas acho belíssimo, cada ponta ó”, diverte-se, ao comentar sobre as peças que ganha.

Um dos apaixonados pelo tempero de Conceição, Padre Alfredo Dórea, fala sobre os 28 anos da instituição fundada por eles no livro “Tia Conça — A nossa senhora Conceição”, uma biografia autorizada, escrita por Nalini Vasconcelos. “ Dona Conceição sempre foi uma mulher guerreira , motivo de orgulho “, diz padre Alfredo Dórea na obra lançada em 2016.

Livro reúne 24 depoimentos sobre a história de Tia Conça (Foto: Reprodução/ TV Bahia)

Leva uma vida simples, mas orgulha-se do título de fundadora da Instituição Beneficente Conceição Macedo, embora o cargo não lhe renda dinheiro. “Quem trabalha é remunerado, gosto que digam que eu sou fundadora, pois eu comecei, e sou dedicada”. Não anda de ônibus, mas por luxo. “Minha aposentadoria eu pago os táxis. Não consigo mais andar de ônibus por causa da artrose no joelho”.

Os sapatos, compra na localidade da Muriçoca, região periférica da Avenida Vasco da Gama. “Vou lá visitar o povo, ver os assistidos”. E faz questão de frisar o preço que paga nos calçados: “Vinte reais!”. À noite, descansa no quartinho do asilo onde vive. De dia, passa o tempo com os adultos e crianças assistidos por ela no abrigo, nos hospitais e nas ruas. “Sou feliz assim”, garante.

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