O ADULTO QUE PULA AS LINHAS DA CALÇADA

O crepúsculo caiu como um pano denso sobre a cidade. Todos aqueles rostos urbanos, apressados, o vaivém dos carros, o burburinho típico da saída, da partida em direção ao lar, ao bar ou ao aeroporto mais próximo.

Eu vinha de bicicleta, fazendo curva à direita, espreitando a rua já escurecida. Observava quem ia, quem vinha, possíveis crateras no asfalto, alguma razão pra sobressalto. A visão tubular se sobressaía, fazendo-me ignorar a periferia, a moldura móvel de um quadro vívido, quase onírico.

Alguma meticulosidade aterrissou em minha percepção. De súbito, assim, como quem nada quer, avistei ao lado uma menininha de uns 4 anos. Ela vinha alegre, cabelos longos, em desalinho. Como a maioria das crianças dessa idade, brincava de saltar as linhas da calçada. Meus olhos sorriram.

[Segundo meu querido amigo e ex-mestre Sebastião Martins, quem percorre seus caminhos a pé - longe dos aceleradores, dos pedais e dos assentos grudentos dos ônibus – tem a oportunidade de captar momentos ímpares, humanismos vários, peculiaridades que passam despercebidas aos amantes da velocidade].

Aí, Tião, eu, tão distraída que sou – e de bike – tive a sorte de parar para ver aquele adulto (que podia ser pai ou avô) que, atrás da pequena infante, também pulava as linhas do calçamento! Havia um encadeamento harmônico lindo na cena: Ela ia à direita; ele à esquerda. Por alguns instantes, pareciam flutuar no ar, carregados por um espírito livre, liberto, disposto e completamente íntegro. Indiferentes a quaisquer perigos, dedicados ao momento pleno. Garantia de felicidade num recorrente adeus à tarde.

Só fiz sorrir mais largo e, inundada de alegria, pedalar até meu destino sem a urgência dessas nossas horas tão cambaleantes.

A.E.