Sobre aborto


Há pouco, passei de carro em frente ao posto de saúde que atende o meu bairro. Na porta, um grupo de umas quinze pessoas segurando cartazes contra o aborto: "Assassinos de bebês"; "Eu tenho o direito de nascer!", etc.

Alguns pensamentos me vieram à cabeça:

1- Você pode ser contra o ato do aborto e a favor da descriminalização da prática. Segundo dados bastante seguros, o número de abortos nos países que os legalizaram caiu consideravelmente. Por quê? Porque, em vez de tratar uma mulher oprimida - e já tão combalida - como criminosa, os governos de muitos lugares optaram pelo massivo investimento na "prevenção" e no acompanhamento psicológico das pessoas afetadas por uma gravidez não só indesejada como desafiadora - de formas que você, que tem renda compatível com pelo menos a sobrevivência de um ser, jamais poderá entender.

2 - Coleguinha, entenda de uma vez por todas que, legalizados ou não, os abortos vão continuar acontecendo! Isso é certo. Não há plaquinha, em cartolina ou mogno, que vá sensibilizar os donos dos "açougues" clandestinos [que todos sabem onde ficam, como operam e quanto cobram] a cessarem as intervenções abortivas. Remédios continuarão a ser comercializados no mercado negro, mulheres, embriões, fetos e bebês continuarão a morrer aos montes. O sistema, com o perdão da palavra, caga e anda para o seu ativismo.

3 - Você encontrará [sério!] raríssimas pessoas insensíveis à prática do aborto. A maioria se importa e não fica indiferente ao fato. Quem se posiciona a favor da legalização só entende que o modelo atual caducou, que são necessárias políticas públicas diferentes em relação ao problema. E que essas decisões não precisam ser cópias fiéis do que é feito em outros países...As dinâmicas são diferenciadas. Mas a proibição só faz aumentar o número de casos e mortes ano a ano. Se você prefere ignorar os fatos e achar que algum tipo de misericórdia divina intervirá no âmago alheio, impedindo interrupções de gravidezes, aí já é contigo (licença 'poética no contigo', por favor).

4 - Não sei a razão, mas tenho a impressão que a maioria das pessoas que levantam os cartazes se incomoda muito mais com a palavra "legalização" do que com o "entorno" da questão, como a busca de informações mais precisas e possíveis soluções para o tema "aborto". Chamar uma mulher carente de tudo de "assassina de bebês" lhes parece mais bacana, sei lá. Deve afagar o ego. Realmente não entendo muito os mecanismos psicológicos envolvidos nesses paranauê.

5 - Antes de dar unfriend no amiguinho [como vi acontecer aos montes aqui], avalie se o seu ativismo contra o aborto teve alguma participação real na diminuição dos casos nos últimos tempos. E, não, sinto dizer, você não é NECESSARIAMENTE uma pessoa mais digna, iluminada e bacana porque cortou relações, muitas vezes somente facebookeanas, com "aquele filho do cão".

6 - Lembre-se: objetivamente, o seu amigo pró-legalização pode estar sendo muito mais efetivo que você - no sentido de encontrar caminhos menos tortuosos para que uma criança venha ao mundo.

7 - Há quem se posicione - com base em argumentações científicas que afirmam que um embrião só tem o que se pode chamar de "consciência" a partir de X dias - a favor do aborto no matter what. E também há outros estudos sobre o assunto... Essa pessoa não é um monstro. Pode estar equivocada, pode estar correta. É questão de foro íntimo.

8 - Você pediria a pena de morte para um guri que roubasse um supermercado alguns anos depois de nascer de uma mãe moribunda e jamais ter tido o mínimo de atenção do Estado para se tornar uma pessoa socializada?