Agarrando-se à necessidade meio que indispensável de se conectar

Sobre o sentido de tudo e o risco que corremos em desenvolver vida e tecnologia sem um propósito bem definido

Design por Igor Postiga

Qual é o seu propósito? Uma intenção, ou desígnio, finalidade, objetivo, intuito, aquilo que se busca alcançar. Poderia ser uma questão filosófica, mas é próprio de qualquer hábito considerado banal. Não devemos confundir o propósito com algo que seja simplesmente imprescindível, ou naturalmente associável. O propósito é o motivo maior, e intenção primeira, algo que desencadeia outras ações e que reflete um planejamento — muito diferente daquilo que é tão somente indispensável ou parte constituinte de um projeto. Vamos pensar em três perspectivas pertinentes para refletir sobre propósito: tecnologia, economia e vida.

Um pensamento que as crianças recorrentemente têm é o da divagação sobre a inexistência. Não é raro ter questionamentos como: e se eu simplesmente nunca tivesse existido? Para si mesmo, significaria não ter sentido ou memória; é como não vivenciar, nem idealizar, absolutamente nada — paradoxalmente, isso é quase inimaginável. Depois disso, vem a preocupação em não existir para o universo e a conclusão mais razoável é que, no fundo, isso tudo se torna uma questão de propósito. As grandes ideias, os feitos memoráveis, a trajetória de vida e a História… tudo quanto tentamos embutir sentido depende de um propósito.

Não é de se espantar que nossas tecnologias digitais mais avançadas sejam justamente inspiradas, vejam, no ser humano. Até o crescimento das flores traz na proporção de suas pétalas o Número de Ouro — um conceito que nós descobrimos, mas não inventamos, e que aplicamos na tentativa de trazer harmonia para tudo quanto projetamos e construímos desde a Grécia Antiga, de arquitetura a computação. Uma motivação biológica, uma problematização humana, um entendimento matemático e uma dimensão prática — muitas formas de conhecimento fazem esse percurso. Acontece que nossa concepção de organização, comunicação e funcionamento foi derivada dos organismos biológicos para a reprodução nas tecnologias digitais e sociais e nos sistemas políticos, econômicos… — isso porque não havia, como não há, exemplos mais impressionantes a se seguir. Basicamente, a evolução tecnológica constantemente se confunde à da própria vida.

Tal qual a tecnologia, os organismos biológicos se espalham, se combinam e se especializam; isso, naturalmente. Assim, seja por onde se olhe hoje, é improvável encontrar um lugar no planeta que esteja isento de vida ou de tecnologia — microorganismos e atualizações são pragas, no bom sentido. Das mirabolâncias do DNA ao melhoramento de versões em aparatos e técnicas, o ser humano busca ser o melhor de si como a tecnologia se desdobra pela exploração do potencial da sociedade. Cada empresa no ramo da tecnologia, como cada célula de um organismo biológico, contribui para um funcionamento geral de acordo com sua subdivisão, seu respectivo sistema. A sobrevivência de um vem de respirar e se alimentar como para o outro depende de lucro e inovação. Há que se perceber que não há quem viva pelas intenções de comer e respirar; a vida exige um propósito maior. Nós, por humanos que somos, temos o compromisso moral de arrumar um sentido para a própria vida, para a tecnologia, para o sistema econômico e para o que mais houver de grandioso ao redor.

Quando nascemos, a tecnologia e a vida já existiam como dádiva — nós procuramos desvendar as origens e aprender com aquilo que recebemos como presente do universo. A comunicação e a organização — as tecnologias que estão no cerne de todas as outras — são as duas forças capazes de armazenar conhecimento ao longo da História, o que nos permite fazer, por assim dizer, a diferença. A responsabilidade de dar rumo a esse conhecimento e às novas descobertas é justamente o que se pode entender por propósito. Queremos a melhor versão, nossa busca incessante, e somos perfeitamente capazes, enquanto seres humanos, de protagonizar uma crise de meia idade, de nos irritarmos com a repetição dos dias e com o vazio de sentido da exploração do trabalho, para nos prevenirmos do fracasso. As tecnologias e o sistema econômico, por outro lado, são incapazes de filosofar por si.

Sempre que falta propósito a um organismo, seu intuito único passa a ser o crescimento, a sobrevivência — o que seria basicamente respirar e se alimentar, biologicamente. Apostar no crescimento desenfreado, através do lucro cego e da mais nova versão a qualquer custo, pode se tornar, equivocadamente, objetivo no ramo da tecnologia. Cada empresa, como as células de um sistema, aceita o desígnio de se reproduzir à distância de sua especialização, esquecida do todo. Esse fenômeno, conhecemos por câncer — uma multiplicação em despropósito, um tumor, que tende a levar à morte todo o organismo. Tudo aquilo que assume o crescimento, por si só, como atividade fim termina em autodestruição.

A tecnologia se apoia na vida e a vida se apoia em autoexpressão, diversidade e oportunidades — nossa melhor chance rumo ao futuro. Qual é o seu propósito? Os avanços da humanidade, o sistema econômico e a sustentabilidade das relações dependem disso.


A Crônicas 1STi foi criada para que possamos conversar sobre a essência da tecnologia como se deve: com seriedade, inspiração e profundidade. Acreditamos que a tecnologia tem o compromisso de se conectar a arte, ciência e humanidade para o desenvolvimento de projetos com propósito e valor. O futuro precisa se alimentar de boas histórias para fazer sentido.

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