Outro dia, quando postei uma foto no Instagram, no intervalo de um Palmeiras e São Paulo, ainda no 0x0, minha irmã ficou puta. Isso dá merda!, e logo depois saiu o gol do São Paulo. Eu nem estava contando vantagem; era só mais um momento: olha a gente no estádio com o papai. Um amigo tricolor, esse sim, veio de muitas certezas antecipadas no comentário maldoso: hoje não!, ao que logo eu pude responder: hoje sim, hoje sim. O Santos quebrou nossa invencibilidade de 15 rodadas no sábado passado, é verdade. Do futuro, a gente só sabe que hão de ser mais 5 rodadas com tudo em jogo. Do passado, eu aproveito pra lembrar um episódio de que gosto.

A foto no Palmeiras e São Paulo foi meramente ilustrativa, uma lembrança boa. O comentário que contou vantagem antes do tempo, por outro lado, terminou com a sua merecida resposta. Eu não quero, com o relato que segue, dizer nada. É só uma história — real. Não que eu seja supersticiosa. Mas é melhor não arriscar e ter avisado com antecedência: é só uma história; real.


2 de dezembro de 2015

Desde o jogo na Vila Belmiro, sete longos dias atrás, há uma contagem em regressão por hoje. A última semana foi uma grande lição do tempo: é necessário esperar que passe. Na última quarta, eu saí toda palmeirense, no agasalho alviverde roubado da minha irmã. O porteiro perguntou: vai jogar hoje?, e eu enchi a boca; hoje vou torcer. Quando me afastei, o segurança ao lado dele soltou o comentário de comiseração: Palmeiras vai tomar uma cossa do Santos hoje. Não vou mentir, estávamos um pouco vencidos pelo pessimismo.

Deu tempo de arranjar um quilo de amendoim, mandioca chips, Brahma litrão… eu fui pela TV e teve quem fosse pela festinha. O jogo era de um a zero pra eles, e eu pensei que estava de bom tamanho. O juiz, novo em folha porque substituía o primeiro — pasmem!, contundido -, queria participar da jogada — sim, ele tentou furar alguém — queria acréscimo, queria um último lance e deixou rolar até quase sair o segundo do Santos. Foi pura aflição, um Palmeiras que passou todo o jogo de toquinho pra trás e chutão pra frente — e que sejam dados os créditos ao Rugby, a inspiração.

Mas chegamos cheios de esperança para a final. A coisa ficou feia no Brasileirão e, às vozes da torcida, tornou-se “obrigação a Copa do Brasil”. Era em casa, contra o Santos que eliminou o Corinthians, com só um deles pra cima do nosso zero lá na Vila. Nesse dois de dezembro, eu acordei e fiz o charme de vestir a camisa o dia todo. Sem querer roubar o protagonismo de todos que foram uma criança de oito anos a chorar pela final da Copa Mercosul, em 2000 — com direito a empate aos 41 e virada aos 48 do segundo tempo; Vasco 4×3 Palmeiras. Eu sinceramente nunca fui de ligar.

Hoje, faço uma graça, fico impressionada com um estádio oneroso, comento sobre os uniformes prata cintilante e tento entender quando é realmente falta — e que me desculpem os mais engajados. Mas, com irmã, pai, namorado, amigos, tios, primas… palmeirenses à flor da pele, é preciso que se preste solidariedade — porque o Palmeiras é grande!, há que se admitir. Ser campeão é uma questão de amor, respeito e tradição. Então é caso de se torcer pra valer. Vesti a camisa o dia todo, exceto pela hora do jogo, que nunca me trouxe boa sorte, botei o nome do adversário no congelador e aceitei de bom grado todo tipo de superstição futebolística.

A história de um jogo de futebol provavelmente vai muito mais longe do que eu poderia ir com esse texto. O garotinho — haja vista a maioria de menininhos em detrimento das menininhas que agora vêm forte — de oito anos, sinceramente chorando pela virada da eliminação, construiu um castelo dos valores da própria vida: no dia que ele morrer, quer o caixão pintado em verde e branco, que é a cor de seu coração; nada de túmulo lado a lado, porque ele sabe que o Palmeiras não morre com ele. É assim que acontece sempre que um amor é bem plantado desde muito cedo. Dizem que o esporte ensina a competitividade, a disciplina, a frustração. Acho que o futebol ensina a paixão.

Meu pai, eu sempre soube que pulou muro de escola pra fugir às quartas; era dia de jogo. Ser importante pra ele fez do futebol, na minha vida, uma dessas obras de arte sacra em museu — sem compreender por onde apreciar, eu respeito e encontro formas de beleza inexplicadas. A minha primeira ida ao estádio veio já aos onze anos de idade e eu certamente não tive que lidar com os fracassos retumbantes do Palmeiras de maneira avassaladora na infância, já tinha botado importância em preocupações de outra natureza. Mas, à parte a paixão pelo futebol, eu queria entender essas crônicas de poetas que se debruçam sobre um único gol. O lance, o gol, a falta que fosse. A poesia dos 100 minutos de alarde de uma partida.

Desta vez, a coisa era séria. Não teve gourmetização de happy hour, nem voz pra piadinha de amigo não palmeirense. Cada um com a sua Bavaria e pronto. O primeiro tempo, apesar do zero a zero, foi de tentativas. As nossas foram um alívio pra quem temeu mais uma partida de Rugby com as barbeiragens lunáticas da esquerda à moda Kelvin. O Barrios se redimiu, o Robinho começava uma entoada que culminaria em assistência para o gol pioneiro da partida, o Arouca se destacou em tudo quanto fez e o Prass começou o processo de canonização — um clássico dos goleiros alviverdes. As tentativas do Santos foram um resgate doloroso e suado do próprio Prass, de trave, de intervenção divina e de sabe-se lá mais o quê. Uns três nomes novos pra mim também foram destaque no Palmeiras dessa quarta-feira — quando eu vejo, tem um Matheus Sales inédito mostrando como é que se faz.

O segundo tempo foi de reconhecer os heróis do gol que providenciariam a resposta ao segurança aqui do prédio, que encheu a boca pra falar da lavada que o Palmeiras tomaria e do título certeiro do Santos. Dudu, no primeiro gol da tentativa de manter a calma em meio a tanta isolada de desespero, partiu pra comemoração de olho no árbitro e torcendo pra não ser impedido — não estava mesmo. O segundo gol, enquanto comentava-se a dificuldade de uma falta chapada, muito de frente pra área, foi a esperança de um final mais fácil, limpo, de um dois a zero claro e objetivo. O mesmo Dudu do primeiro gol foi quem sobrou aos trancos e barrancos, quase dentro do gol, pra empurrar a bola de corpo e tudo — desta vez ele não titubeou em comemorar esgarçando a camisa.

Ficamos todos aliviados com o resultado já de campeão e razoavelmente perto do fim, leso engano. O lapso do gol que nos dava a vitória foi suficiente para deixar nascer um Ricardo Oliveira sozinho na cobrança do escanteio que virou dois a um. A essa altura, o melhor que se podia acreditar era a saída pros pênaltis, velha conhecida das decisões no Palmeiras. E lá chegamos nós. Achei que o tempo entre o final do jogo e as cobranças foi demais, longo feito a última semana de cada palmeirense que eu conheço.

Até que corria tudo bem com tantos palmeirenses suando frio ao meu redor. Os fumantes acenderam cigarros, os supersticiosos fizeram volta olímpica pela casa e se ajoelharam, os da cerveja foram fazer xixi… nada fora do normal, até que anuncia-se um Prass para o último pênalti. Todos enlouqueceram por alguns segundos e depois se convenceram de que ou a ordem estava errada, ou “vamaê que vai dar tudo certo”. E deu.

O primeiro deles, com Marquinhos Gabriel, passou por cima do gol. O nosso primeiro foi um certeiro Zé Roberto no canto superior esquerdo. O segundo deles foi de Gustavo Henrique, defendido por Prass. Rafael Marques erra pelo Palmeiras, mas estamos em dois erros deles contra um erro e um acerto nosso. A partir daí é só gol atrás de gol. Quando o Lucas Lima bateu cruzado pelo Santos, os amigos palmeirenses se consolaram em concordância: canhoto não tem jeito mesmo — e eu finalmente descobri no que é melhor ser canhoto.

Quando o Prass foi bater a decisão da Copa do Brasil desse ano eu pensei que estava tudo bem. Muito embora eu não seja fã de quando o goleiro herói decide chutar, havia a segurança de saber que se ele estava cobrando é porque o gol estava desprotegido; ele sabia tudo que um goleiro poderia tentar e deixou Vanderlei sem opções. É gol. É campeão!, em cima do time que eliminou Corinthians e São Paulo. No centro da sala, dois amigos e o namorado pulando, desacreditando, sinceramente felizes pelo título. Um amigo me abraça, outro amigo se esquiva, vai pra fora e chora. Zé Roberto, em entrevista, esclarece: o Palmeiras não é grande, é gigante!

Fomos pra rua buzinar, gritar, torar o hino no carro e na garganta. Sabe sempre levar de vencida e mostrar que de fato é campeão!, e por hoje eu dou o braço a torcer sobre essa tal paixão. Nas palavras de Drummond: “os milhões de analfabetos, subnutridos e marginalizados, dos mundos ocidental e oriental, não desconfiam sequer de que há alimentos fascinantes para fomes não pressentidas. […] O futebol é desses raros exemplos de arte corporal e mental que promovem a felicidade unânime, embora dividindo a massa, pois a fusão íntima se opera em torno da beleza do gesto, venha de que corpo vier”.

Quando começou a chover, eu pensei: pena, vai dispersar a comemoração tão logo — e o caso foi de uma legítima tempestade pra alagar a cidade. Aí eu vi um palmeirense arrastando um peixe morto pela correnteza da chuva, feliz da vida, e concluí: o Palmeiras é mesmo gigante.