Guerra do Ultramar.

Entre 1961 e 1974.


Ainda hoje lhe pergunto e ainda hoje me olha sem saber que responder, atarefado e acelerado… Com os olhos vidrados.

Jovem destemido e com a garra para defender uma nação, foi e voltou. Felizmente! Mas perdeu muito, tanto que nem consegue descrever o estrago.

Durante anos após o 25 de Abril, viveu o drama de dormir numa cama civilizada, voltar à rotina e família que um dia deixara para trás para lutar pela nação. Gritava, pesadelos constantes, era mal humorado, batia. Chorava de arrependimento pelo estrago que a guerra lhe tinha causado. Não era só as perdas das vidas que os seus camaradas por lá ficaram, era mais que isso. A volta e revolta. A dor e o pesadelo. Viver do medo e da assombração. De arma na mão e um pão. Tantas vezes pedia desculpa e ainda hoje.

Ainda hoje o trauma da guerra o persegue e consome de forma ofegante. Fala de forma breve e directa. Não prolonga e nem necessita, o olhar fala por si.

Malditas guerras!


(Joaquim Galvão - Avô)