Algumas linhas sobre Prisioneiras, de Drauzio Varella

O livro Prisioneiras, do médico Drauzio Varella, é o terceiro livro de sua trilogia sobre o sistema prisional brasileiro, iniciada por Estação Carandiru e seguida de Carcereiros. É preciso que o livro seja encarado pelo que é: uma narrativa sobre uma experiência particular. Não é um estudo sociológico, não tem a pretensão de ser. Como o autor narra nas primeiras páginas, a ideia inicial não era transformar em livro as histórias do presídio onde realizava atendimento médico como voluntário, era apenas escrever uma coluna para um jornal de grande circulação na época. Aos poucos ganhou corpo e cara de um livro, e depois dois, e agora três.
Prisioneiras é sobre a experiência do autor na Penitenciária Feminina da Capital, lugar com o qual criou uma relação de longo prazo depois da implosão do Carandiru, onde trabalhou por treze anos.
Em tempos de debates feministas por todos os lados, é natural que um livro que carregue esse título e que pretenda falar de mulheres presas seja encarado, questionado e julgado seguindo alguns parâmetros reforçados por esses movimentos. Porém, é necessário que o compreendamos pelo que pretende ser, e não por alguma ideia que tenhamos do que ele deveria ser.

Drauzio tem o cuidado de tratar os relatos do texto como defende que os pacientes sejam tratados, com cuidado, com humanidade. Nas histórias que conta, não impõe seu julgamento moral sobre as ações que levaram aquelas pessoas àquele lugar, apenas narra, dá voz àquelas pessoas. Quando o autor deixa passar algum julgamento é sobre o sistema prisional ineficiente, que se transforma em “faculdade do crime”; sobre a incapacidade do Estado de garantir a segurança daqueles que estão sob sua tutela, dando abertura e até criando a necessidade de algum tipo de organização interna própria; sobre o erro dessa “guerra às drogas” que vitima especialmente jovens negros das periferias, superlotando as cadeias sem chegar nem perto de resolver o problema; e, no caso desse livro, sobre o machismo fortíssimo na sociedade, que gera experiências terríveis especialmente em meninas de famílias desestruturadas das periferias, que as obriga a não abandonar os companheiros presos, mas que faz com que fiquem sozinhas quando são presas, e que é refletido em várias práticas do Primeiro Comando da Capital, o PCC — carregadas do machismo presente em toda a sociedade.
As críticas feitas ao livro circulam em torno das essencializações que o médico deixa passar. Ideias que ficam mais explícitas nas comparações que traça entre o presídio masculino e o feminino: hierarquia rígida e racional dos homens, em oposição ao fato de que com as mulheres “as emoções entram no jogo”; a “delicadeza feminina” que faz com que elas façam bolsinhas que ficam na porta das celas para receber os pães do café da manhã, enquanto os homens usavam para isso sacolas plásticas de supermercado; a limpeza das celas femininas devida ao “gosto das mulheres por manter a casa limpa e bem arrumada”; e outras afirmações desse mesmo tipo.
Obviamente elas são problemáticas. O reforço de que as mulheres são emocionais, delicadas, e tem um gosto natural pelo cuidado doméstico é contrário a todo esforço dos movimentos feministas desde muito tempo. Porém, é importante que não joguemos o bebê com a água do banho. O livro de Drauzio Varella é importante e demonizá-lo é um erro. Ele é muito mais um aliado que um inimigo a ser combatido.

Qual o alcance de um livro de Drauzio Varella, médico que teve quadro no Fantástico e é reconhecido por todos os lugares? Não devemos menosprezar a importância de um livro que será lido por muitas pessoas que não estão em profundos debates sobre o impacto da criminalização das drogas na população carcerária brasileira ou sobre o profundo machismo da sociedade. E o autor destaca fortemente essas questões. Como dito acima, são os poucos lugares onde o julgamento do autor aparece.
Como não é uma análise sociológica, não busca classificar, explicar comportamentos, apenas narra. E narra sem medo. Os episódios de violência sexual dão a medida do terror que muitas mulheres passam; a solidão declarada por elas demonstra como o machismo violenta realmente de todas as formas; e há a coragem de Drauzio em se posicionar.
Quase ao fim do livro, quando narra as histórias daquelas que foram presas levando drogas para seus companheiros em presídios, as “pontes”, o autor marca um de seus posicionamentos mais fortes:
“O que a sociedade ganha trancando essas mulheres por anos consecutivos? O que representa, no volume geral do tráfico, a quantidade de droga que cabe na vagina de uma mulher? (…) As mulheres-ponte flagradas todos os fins de semana nas portarias poderiam ser condenadas a penas alternativas e a sanções administrativas, como a proibição de entrar nos presídios do estado. O preso a quem se destina a encomenda poderia ser punido com a perda de benefícios e a extensão da pena. Qualquer solução seria mais sensata do que a atual: elas vão para a cadeia, os filhos ficam abandonados em situação de risco e o homem que encomendou a droga arranja outra ponte para manter o fluxo de caixa.” (p.209)
Junto deste, um outro posicionamento forte do autor é sua contrariedade ao benefício de celas especiais para aqueles com nível superior: “privilégio inexplicável”. E a criminalização das drogas:
“Quanto tempo será necessário para nos convencermos de que essa legislação nos conduziu ao pior dos mundos: roubos, assassinatos, quadrilhas em disputa permanente pelas rotas de tráfico e pontos de venda, tiroteios, morte de inocentes, cracolândias, corrupção da polícia, do judiciário e do legislativo, sem impedir que as drogas cheguem às mãos dos usuários? Quanto dinheiro investido em repressão policial, construção e manutenção de presídios para resultados tão pífios?” (p. 265)

Sobre o julgamento pesado e o abandono das mulheres presas não só pelos companheiros, mas pelos familiares, Drauzio argumenta que isso provavelmente se deve à “vergonha” causada pela prisão de uma filha ou uma mãe, já que a expectativa é de que as mulheres sejam recatadas e obedientes e que fiquem “no seu lugar”. A entrada no mundo do crime, no caso das mulheres, não é apenas um rompimento com as leis formais, é também um rompimento com as leis sociais que esperam delas recato, bondade, e apego à vida privada. O autor destaca como isso fica evidente nos rótulos que as mulheres envolvidas com o crime recebem, fortemente ligados ao comportamento sexual: “Fica subentendido que se ela rouba, trafica ou assalta é sexualmente promíscua” (p. 271), enquanto no caso do homem, ele pode ser “considerado mau-caráter, desalmado, perverso, mas ninguém questiona sua vida sexual” (p. 271).
A demonização do livro por conta dos “deslizes” de Drauzio Varella ao relatar de forma essencialista alguns comportamentos observados é menosprezar o impacto positivo que pode ter devido a seu alcance de público; e seus méritos, ao apresentar essas histórias pessoais sem julgamentos morais e permitir julgamentos apenas quando são relacionados ao machismo da sociedade e à incapacidade do Estado de resolver os problemas de desigualdade, violência e os relacionados ao tráfico de drogas. O livro pode não ser perfeito, mas é evidentemente importante para o debate.
Prisioneiras, de Drauzio Varella. Cia das Letras, 2017. R$ 39,90.
