CLUBE DA ESCRITA #1 — Autorretrato no Passado | Literasutra — Adriana — ERA ELA, ERA EU

Havia um tempo em que ela corria displicente, cabelos ao vento, olhos esbugalhados, descalça e desgrenhada.
Ela corria como se o tempo urgisse em real desespero de contar de segundos, ela queria o limite de todo o espaço-tempo.
Não se preocupava com estar arrumada, os fios nunca estavam alinhados na cabeça e parecia uma boneca daquelas de feira já emaranhadas de tanto brincar.
Perdia diversas vezes suas chinelas na hora de ir para casa, ou sempre que alguém a chamava para sair.
Não se preocupava em ser educada, nem ao menos bonita, apenas era ela.
E ela sabia ser ela como ninguém, nem demais, nem de menos. 
Brincava na areia e subia em pés de manga, reunia histórias lidas em quadrinhos que suas tias traziam e a ensinavam pacientemente como soletrar. Era ávida pelas letras e linhas, e vez ou outra era encontrada lendo sozinha.
Mas ela não era solitária. 
Era ela; apenas ela, a menina de cabelos encaracolados e rebeldes, que tinha preguiça de comer, e que vez ou outra era repreendida por estar desatenta e falar demais.
Porque ela era tagarela, ela falava demais, ria de mais e se importava com isso de menos.
Era ela uma versão deslocada de bagunça e tempos bons, com cheiro de café e brigadeiro pra comer na colher.
Questionava demais, e poucas vezes recebia as respostas que buscava em seus intermintentes porquês.
Era uma sonhadora sem precedentes, e que acreditava em sonhos inacabados.
Ela possuía um sorriso esganiçado, quase que uma gargalhada estridente, e não se envergonhava disso.
Ela era o que eu desejaria ser agora, se já não o fosse; mas já o sou, porque ela me preenche com memórias que um simples piscar de olhos trazem à tona como uma avalanche de alegrias.
Ela era uma projeção de mim, e sou uma lembrança dela, e estamos assim entremeadas uma da outra.
Porque era ela,
porque era eu.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.