Já fui delírio.
Já me vesti de negro apenas para agradar teus olhos.
Já me questionei horas a fio e nem ao menos me dei conta de que nunca houveram perguntas a serem respondidas.
Já mudei minha forma tantas vezes e permaneci igual.
Já me esqueci quem eu era e o que eu era; e nessa busca me perdi mais e mais.
E me encontrei nas verdades inauditas dos poetas.
Eu tinha os olhos nervosos de criança enfurecida e os meus cabelos eram borboletas com asas de algodão.
Eu quis adentrar o mundo desperto de tuas retinas e encarar a vida sob a perspectiva de teus lindos olhos castanhos, verdes e azuis.
E perceber o quanto é estranho olhar o que sou pela maneira de despir-me delicadamente em outros pensamentos, senão os meus.
Minha pele era branca, alva como os pensamentos de um criminoso em êxtase.
A voz eu podia modificar a bel prazer, mas nunca o fiz, pois acho perca de tempo disfarçar minha maneira de verbalizar os sentimentos.
Não sabia onde estava, e geralmente isso não fazia a menor diferença, visto que se a gente não sabe aonde ir qualquer lugar está bom.
Meu sorriso era tão inocente quanto a pureza das infantes meninas de 3 anos que esperam abraços de felicitação por terem sido educadas e polidas.
E meu perfume; esse era indiscutivelmente fácil de identificar, pois ele tinha um tom dourado de néctar e era possível perceber sua viscosidade azul-esverdeada.
Já fui parte de um todo que acabou-se no meio do caminho.
Já mergulhei em sangue e suor por horas a fio buscando o sentido da vida e da morte.
Já fui de todo um ponto, e uma reta, por vezes até um círculo sem fim.
Já fui você, já fui outros e fui o que hoje sou…
Já fui delírio, mas passou…
