Não saímos da caverna…
Não, não estou dizendo que estamos na pré-história. A caverna de que estou falando é a caverna da alegoria de Platão. Para quem não sabe, essa fábula fala sobre pessoas que desde seu nascimento viveram em uma caverna, acorrentadas, sem conseguir olhar a si mesmas ou às outras, apenas vendo sombras refletidas pela fogueira e sua realidade portanto é baseada na imaginação, tendo como referência o pouco que cada um vê.
Pois bem… se fizermos uma analogia com a vida que levamos hoje, podemos pensar que a caverna é o mundo digital em que estamos inseridos, com tantas redes sociais e aplicativos de comunicação disponíveis. Existe uma discussão de que a tecnologia aproxima quem está longe, mas afasta quem está próximo de nós. Se formos analisar essa frase, lembramos que cada vez mais as pessoas estão conectadas em seus celulares e menos fisicamente. Quantos de nós estamos em eventos familiares e vidrados na telinha sem conversar com quem está à volta? E nesse mundo digital, você e eu podemos ser o que quisermos. Podemos ser ricos e famosos, ter sucesso, sermos magros e belos, qualquer coisa. E assim será a percepção do mundo sobre nós. Cada um irá descrever o outro pela maneira que ele ou ela se mostra no mundo virtual. É a mesma sombra da caverna, não é? E chega uma hora que você se perde na sua “persona” e começa apenas a se enxergar pela sombra. E paramos de interagir com o mundo, com os outros e com nós mesmos de forma natural, através da nossa essência e começamos a achar que essa imagem que o mundo e nós mesmos temos é a realidade. Na alegoria de Platão um homem sai da caverna e se depara com o mundo externo e sua mente se abre para uma nova realidade. E se a internet saísse do ar? E se toda essa vida paralela desmoronasse? Nos reconheceríamos? Estaríamos perdidos em nós mesmos e no mundo? Ou finalmente teríamos a chance de nos encontrarmos? Voltaríamos para a caverna por medo de encarar quem somos de fato?
Me parece que infelizmente ainda não temos sabedoria para lidar com os recursos de que dispomos, porque ao invés de encará-los como ferramentas, os usamos como muletas: jogamos o peso das nossas responsabilidades nestes recursos e desaprendemos a andar sozinhos. Torço para que saiamos da caverna, que tenhamos coragem de olhar o mundo com olhos de ver e não tenhamos medo de quem somos e que de uma vez por todas entendamos que cada um de nós, na sua essência, é importante e pode fazer a diferença com seus próprios talentos, sem precisar viver da sombra do outro.