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Quer inovar no direito? Escreva

Escrever sobre temas não jurídicos é um exercício que todo advogado deveria fazer.

Há pouco mais de um ano me coloquei o desafio de criar algo novo, desconectado com a minha prática no direito. Com o tempo, percebi que criar um blog de conteúdo de ciclismo para mulheres me obrigou a rever uma das atividades mais básicas da minha vida: escrever. O texto técnico, sólido e embasado teve de dar lugar a outro formato de escrita.

O primeiro post que escrevi sobre ciclismo revelou — para minha surpresa — qual era meu modus operandi até aquele momento. Antes mesmo de digitar a primeira palavra, uma série de perguntas brotaram na minha cabeça, apontando para uma limitação. Posso escrever o que eu quiser? Mas em qual autor ou referência vou me basear? Qual é a posição correta que devo defender, qual deve ser minha conclusão no texto?

O processo de criação, ao qual estava tão acostumada, não me serviria para nada ali.

Para meu desconforto, o post “O que você precisa para começar a treinar”, um texto simples e do tipo #comofaz, não seria baseado em nenhum parecer, lei ou pesquisa científica. Meu texto se basearia única e exclusivamente na minha experiência e na experiência das pessoas que estavam à minha volta. A autoridade éramos nós, nas nossas observações e na nossa prática cotidiana, totalmente física e corporal. Tudo era diferente.

Mas aos poucos novos hábitos vão surgindo. Na vida tudo é treino.

Escrever é algo que soa como premissa da vida profissional de qualquer jurista, mas que não recebe a devida atenção em nenhum momento de nossa formação técnica. Escrever parece ser a expressão de um estilo próprio, como se cada um nascesse com o seu.

Como se essa escrita não fosse o resultado do que nos alimentamos: os próprios textos jurídicos.

[Isso me remete a duas referências. A primeira é o livro Como decidem as Cortes? Para uma crítica do direito brasileiro, de José Rodrigo Rodrigues, no qual esse “estilo” próprio de escrever de cada juiz é apontado como uma das caraterísticas de atuação do judiciário brasileiro, fincado na noção de que cada juiz tem o seu repertório individual de posicionamentos e teses. A segunda é o blog “Como eu escrevo”, um projeto inovador de registro do processo de escrita de juristas e autores diferentes áreas, que revela um pouco dessa prática não comentada na nossa formação].

Rapidamente percebi que as fórmulas que antes usava com tanta facilidade, não atendiam meu novo público. Textos de inspiração ou informativos, entrevistas, notícias ou opiniões. Além do tema novo, o desafio incluía escrever artigos que seriam lidos em poucos minutos, segundos até. Eles precisavam ser claros e objetivos, de uma forma que nenhum texto jurídico meu um dia foi.

Ao fazer uma quebra nesse processo de retro-alimentação e me dedicar a outra escrita, passei a ver de fora não só os meus condicionamentos, mas também os padrões de escrita e linguagem nos quais nós, advogados e juristas, estamos inseridos.

Lições valiosas começam hoje a ser retiradas e me vejo descompartimentalizando o aprendizado, que pode ser transferido para qualquer âmbito.

Saber quem é sua audiência, colocar-se nos olhos do leitor ou da leitora, tangibilizar, retirar frases inúteis, trabalhar pela fluidez dos parágrafos. Identificar de antemão e claramente qual é a mensagem que se quer passar — uma apenas — e construir o texto simples para expressá-la. Dá trabalho, escrever.

Isso não são características importantes apenas em blogs, notícias ou textos jornalísticos. Forçar-se a escrever de forma simples e acessível, pode parecer impensável para quem quer manter o direito como linguagem exclusiva.

Mas se hoje falamos de mudanças na forma de atuação do advogado, para acompanhar as necessidades do mercado impostas pelo desenvolvimento tecnológico (e especialmente da tecnologia da informação), não me parece suficiente falar em automação de processos. É necessário ir além, compreendendo que essas mudanças exigem um novo mindset.

Num mundo cada vez mais acelerado, no qual somos bombardeados com informações de todo tipo, vindas das milhares de conexões que fazemos diariamente, facilidade e fluidez na comunicação são vitais. Fazer-me compreendida, valorizar o tempo do leitor (ou cliente) e permitir que essa difícil área do conhecimento — o direito — esteja acessível para trocas com outros campos, com suas estruturas particulares e informações diferentes, possibilitando a execução de projetos multidisciplinares, são exercícios que nos tiram da zona de conforto e que exigem um repensar na forma de se expressar, escrever e, no limite, de pensar.

[Nota para futuros textos: me parece que essa mudança mais profunda, de mindset, é do que fala Richard Susskind quando trata dos três pilares da mudança que a prestação de serviços jurídicos vem sofrendo]

Escrever sobre temas não jurídicos, para uma audiência não jurídica, tem sido um dos exercícios mais enriquecedores que fiz. Você se obriga a simplificar, revisitar sua forma de falar. Me fez mudar o jeito de escrever e pensar, de ver o direito e, daqui para frente, de colocá-lo em prática.