Eu mulher Preta!

Nunca vivi, sempre sobrevivi as margens do que a sociedade me pautou!

A resiliência me fez chegar até aqui, mas na minha época o nome era outro, chamavam de necessidade, falta de opção, entre vários outros, alguns na verdade que nem me lembro mais, mas tem um que nunca esqueci porque diziam tanto que a memória para esse não falha, diziam assim: negra esse é o seu lugar!

Então do meu “lugar” eu comecei a construir!

A verdade é que eu nunca quis percorrer tantos caminhos para chegar ao mesmo lugar!

Nunca perdi tanto para chegar ao mesmo lugar, e em todos eles cheguei sempre aos pedaços!

Por falar em pedaços alguns até os dias atuais ainda não retornaram a mim e outros nem entendi porque me tiraram!

Tiraram meu direito de ser pessoa” pessoa de verdade” como dizem “pessoa humana “ que é além de pessoa carne!

Mas eu lembro que carne sempre fui, porque só assim que viram por muito tempo, o que não quer dizer que não vejam mais!

Mas minhas carnes também são um problema! Essa carne Preta, Reluzente, “Fetida” e Sensual! Já me deu tantos problemas que até já desejei que ela nunca mais fosse preta!

Essa carne é problema tão sério que até o fruto, os tais dos filhos que me trago ao mundo eles me levam!

Já levaram meus homens pretos, e quando digo homens foram todos eles..irmãos, filhos, pais e maridos, esses últimos nem tem mais direito a ter !

Mas isso não é um problema para uma mulher preta que não pode nem ser considerada digna de ser desposada!

Mas eu queria, por muitas vezes eu quis deixar de sonhar e ter essa opção!

Mas como eles já tinham ido, desposar ao lado de outras que comigo não pareciam “ nesse caso nem resiliente eu pude ser, nesse casso nem resiliente eu quis ser, pode ser porque ali não era meu lugar!

Vi muitos construindo castelos e masmorras e pelo andar desse texto já devem saber a quem era destinada essas construções!

Mas dizem que de cima se vê tudo, e eu digo quando se está lá embaixo é que se faz parte do que acontece!

Mesmo de fora ou de baixo, sim eu fiz parte porque chorei cada uma de nossas perdas e cada uma de nossas dores!

Segurar esse peso me fez mais forte, sim porque eu fui a primeira a vir para esse buraco e carreguei comigo o peso de todos os outros que em cima de mim foram jogados !

Pra sair daqui eu precisei também tirar todos aqueles que estavam literalmente em cima de mim!

Como eu já estava viva mesmo, tirei um a um, e tive paciência até com aqueles que retornaram!

Depois então de levantar tanta gente, eu subi!

De pés descalços, cabelo crespo e roupas esfarrapadas me “invisível”, diante da sociedade, eu sei que a palavra é difícil mas a ação não!

Eu era tão invisível que as coisas se tornaram “fáceis”,
Logo eu aprendi que podia andar, só não podia fazer barulho!

E foi assim que comecei, juntei pedras na madrugada, até porque era o único horário de descanso que eu tinha, para começar uma construção!

Vocês não imaginam em que uma lágrima pode se transformar! Eram tantas que sobrou material para mais umas cem construções!

E foi assim que eu construí, juntei minhas dores com mais um monte que encontrei pelo caminho para a primeira construção!

Assim me formei “no literal da palavra mesmo”, mas quando olhei para trás não era o bastante e ainda haviam muitas dores!

Para dor só juntar mais dor não basta!

Resolvi então começar a visitar alguns castelos, fui de um em um, mas ali nunca me cabia, seja porque eu fosse demais, ou porque eu fosse de menos, acreditem muitas vezes foi por ser demais!

E foi exatamente por ser demais que decidi sair do castelo e Criar um Império! O Império de Candaces!

Porque rainhas não merecem menos do que isso, porque sim as mulheres precisam de momentos para sentir suas dores, chorar seus amores, gritar sim suas loucuras e se refazer!

Não mais precisamos nos refazer em buracos e masmorras que constroem para nós !

Obrigada! De nada! Mas seus trabalhos não nos são mais úteis! Sintam-se felizes, estamos assinando a alforria de vocês e nem precisa agradecer!

Porque somos mais, porque somos únicas, porque somos fortes e sabemos quem queremos ser e onde queremos estar!

Império de Candaces, mais de nós mesmas, para nós mesmas, porque não cabemos em nós!