“O debate está mal colocado (…) Temos que rediscutir a federação e devolver a cultura para os municípios. A cultura acontece nas cidades, e não no Estado ou na nação. É preciso que a institucionalidade da Cultura reconheça o papel central da cidade”

Em meio a mais um debate de superfície, de histeria reativa, Coelho Netto falou pro Nexo o que realmente importa.

Qualquer um que acompanhou a atividade do MinC na última década sabe da incoerência nas prioridades, do acesso impossibilitado pela distancia e burocracia, e do direcionamento questionável da sua verba raquítica ou das aprovações de Lei Rouanet. Aí ano passado a Dilma passou a tesoura em 30% na carteira da cultura. Um terço do cadaver.

O MinC era um ministério quase figurativo, tinha um orçamento de menos de R$2 bi e meio, que descontando folha de pagamento, manutenção de equipamento, verbas comprometidas com fundos de revitalização de cidade histórica (que Dilmão irresponsavelmente mandou para lá quando saiu assinando PAC) e outras obrigações, ficava com mais ou menos R$ 300 milhões para investir em novos projetos. Uma vergonha, né? Trezentas mileta, meu amigo. Isso é o que vale a sua e a minha cultura no ano.

Vamos comparar só para dar mais desgosto? Essa grana é um terço do que você paga só de salário, passagem a auxílio para deputado — R$ 1 bi por ano.

Mais uma: sabe quanto a Dilma, SÓ ELA, com viagens, “despesas administrativas” e servicos para bancar o palácio, e por aí vai? R$ 750 milhões. Só a vida diária da presidente vale mais que o dobro da sua cultura inteira. Aliás a Dilma andou custando o dobro da rainha da inglaterra — sem zoeira.

Mas sabe por que isso tudo? Porque o MinC nasceu no governo do Sarneyzão-gente-fina, não para prestigiar a cultura, mas para tirar um problema que vivia dentro do Ministério da Educação.

Então vamos colocar o pé no chão e parar de achar que o fim do MinC é um ataque do Temer-do-demo contra você, que vive de arte ou faz arte para se sentir vivo. O Temer é do demo, mas esse não foi um ataque. A gente ainda não sabe o que vai acontecer, mas as chances maiores, de fato, apontam para incremento na grana da pasta.

No final, o que pintou mesmo foi a oportunidade de reacender a discussão sobre a desfederalização da cultura, para que as cidades — que estão próximas às manifestações culturais tão plurais do nosso país e que estão ao alcance do artista local do ponto de vista físico e burocrático — possam capitalizar, funcionalizar e consequentemente fomentar a cultura que florece por lá.

O pacto federativo tá na pauta pra ser discutido.

Quem sabe essa a gente emplaca.

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