Nina, a lutadora

Tenho uma cachorra vira lata. Ela se chama Nina. Quando meu pai pegou ela na rua ela tinha medo. Muito medo mesmo. Ela tinha medo de tudo. De todos. Até de coisas inanimadas, para as quais ela latia achando ser algo com vida como um saco plástico voando no quintal ou um pedaço de borracha no meio da rua. Dizem que todos os cachorros latem quando tem medo, eu acho que é mentira, muitos cachorros latem porquê estão bravos. Mas a Nina não, ela late de medo mesmo. No começo, nos primeiros meses depois da gente pegar ela debaixo de um carro em pleno mês de junho, debaixo de uma baita chuva, ela fazia xixi com a simples menção da gente chegar perto. Pra colocar a mão nela, ou pegar no colo, só depois de encurralar ela num canto (eu sei, somos cruéis), quando mesmo abanando o rabo, ela acabava sempre fazendo xixi. Acho que ela se acostumou a ter medo. E a gente se acostumou a manter distância dela quando ela tinha medo (mentira).

Ela tá com a gente faz quase dois anos e já tem uns seis meses que ela se aproxima quando a gente se abaixa e fala baixinho fazendo voz de idiota apaixonado. Ela vem e deita no chão com as patinhas pra cima pra gente passar a mão na barriga dela. E ela também cheira a gente quando a gente não tá olhando, pelas costas. Ela cheira encostando o focinho na camiseta, e na bunda. Parece que ela quer sentir cada possível partícula de sujeira que a gente possa exalar. Basicamente é provável que nosso fedor proporcione algum tipo de atmosfera de segurança pra ela. Aí quando a gente se vira, ela sai correndo e fica num movimento constante em busca de saídas como um boxeador que tenta ganhar tempo entre um round e outro pois sabe ser mais fraco que o oponente. A diferença é que ao invés de um direto no queixo, se eu me distrair vou receber uma focinhada na bunda.

Ela tá o tempo inteiro alerta, pronta pra reagir ao menor barulho que escute ou movimento estranho que veja. É engraçado que quando meu pai tá preparando a comida dela, ela fica no portãozinho de madeira que separa a cozinha do quintal, com as patas em cima, abanando o rabo. Às vezes ela abre o portão… Mas basta a gente chegar perto que ela sai correndo novamente. Parece que agora ela continua abanando o rabo, mesmo longe. Com aqueles olhinhos de sapeca que ela tem. To querendo dizer que apesar do medo, ela nos ama e demonstra isso do jeito dela. O que torna tudo ainda mais exclusivo. Ela adora passear com coleira. Quando ela vê a coleira, ela deita na grama e fica imóvel. Tem isso também, toda vez que a gente pega ela, de forma que ela fique a nossa mercê, ela fica imóvel como se tivesse morrido o que torna o procedimento de colocar a coleira exclusivamente difícil. Ela sofre pra poder receber nosso carinho. Deve ser uma baita confusão na cabeça dela, sei lá que traumas ela teve antes da gente encontrá-la embaixo daquele carro numa noite fria de junho.

Quando começei a escrever esse texto eu pensava em fazer uma analogia com as pessoas que também têm dificuldades em aceitar o amor dos outros e tal. Mas desisti. A Nina é exclusiva demais pra esse tipo de comparação.