“Nonsense: Uma operação modeladora do estético contemporâneo”

“Se não pode convencê-los, confunda-os.” A Lei de Truman poderia muito bem ser o slogan do nonsense, tanto como estilo de humor quanto estrutura de roteiro. Não se trata de desprover de sentido uma narrativa audiovisual, pois isso seria impossível, mas de se conformar uma operação modeladora do estético, instituindo-a na cultura; grosso modo, trata-se da arte de produzir sentido, a partir da confusão da cultura e para ela.

Como sabemos, o século XX permitiu uma nova ordem de discurso social em vias do informacionalismo e de suas técnicas de produção, reprodução, circulação e descarte de imagens. Tudo muito rapidamente! Uma grande parcela da sociedade passou a fabricar imagens e a assistir a um mundo de mil faces, cujos textos “misturados” atestam a complexidade intrínseca da operação estética que travamos com a natureza do nosso tempo.

O lugar cultural onde é compelido o nonsense coloca seu objeto de arte em circulação e na copresença de um sujeito preterido, que nem sempre é o mesmo que percebe a “confusão” desejada pelo artista; nesse jogo recíproco, não somente entre um objeto forjado e um sujeito que percebe, mas também entre as formas impostas aos objetos e os sentidos requisitados do sujeito, o que se coloca em perspectiva é justamente esse jogo recíproco como um estilo possível de arte audiovisual tipicamente contemporâneo, já consagrado em textos característicos de humor, como os de Monty Python (nos anos 1970) e os de Tim and Eric (atualmente).

O nonsense pode ser o estilo de um artista, que desde sempre é um ser social que busca exprimir seu modo de estar no mundo na companhia de outros seres humanos, voltando-se para a sociedade de algum modo, seja para refletir sobre ela, criticá-la, afirmá-la ou superá- la. No caso do nonsense, a estratégia persuasiva do artista consiste em perseguir modos de gerar confusão (mistura) de sentidos culturais, pois se volta constantemente para a sociedade, surpreendendo-a com sua forma exigente de fazê-la tentar entender a intenção da moldagem; perturba seu “capital cultural” de tal modo que o sentido parece mesmo estar escondido em algum outro lugar, e não na operação estética processada no bojo da própria cultura.

O pensador/cineasta francês Edgar Morin, ao comparar o amor com a obra de arte, deixa implícita a complexidade que pode haver numa operação modeladora do estético. Permitimos a nós mesmos um pequeno uso desviado do que diz o autor, atualizando o vocabulário e o sentido da comparação para o nosso propósito: ele diz que, tanto no amor quanto na criação de uma obra de arte nonsense, exige-se imaginação, concentração total, a combinação de todos os aspectos da personalidade humana, sacrifício pessoal por parte do artista e liberdade absoluta. Mas, acima de tudo, tal como se dá com o amor, a criação artística nonsense exige ação, ou seja, atividades e comportamentos não rotineiros, assim como uma atenção constante à natureza intrínseca do parceiro/espectador, o esforço de compreender sua individualidade, além de respeito. E, por fim, a arte precisa de tolerância, da consciência de que não deve impor suas perspectivas ou opiniões ao companheiro/receptor, ou atrapalhar sua felicidade.

O humor nonsense, podemos dizer, abstém-se de prometer uma passagem fácil para a significação, em troca da confusão. Um humor “corriqueiro”, inspirado por práticas consumistas, promete que essa passagem será fácil e livre de problemas. É mais como ganhar a piada na loteria do que por meio de um ato de criação e de esforço para construí-la.
O espectador é incitado, portanto, a criar junto, a construir a obra de arte nonsense, se confundindo com ela. Ele investiga os detalhes, as personagens, as transições “cafonas” de cena, a fusão de textos, o caráter híbrido da linguagem. Cada cena, episódio ou temporada remonta a uma maneira bricoladora de se produzir sentido, jogando-se com o “capital cultural” de modo a “sacudi-lo”.

A “TV pesadelo” de Tim and Eric, inspirada nos canais de TV a cabo dos anos 1990, exemplifica como os textos de antes e de hoje se misturam no nonsense, como um modo artístico de provocar novas formas estéticas de convencimento a partir da confusão de sentidos.

A confusão nonsense pode significar, hoje, uma operação modeladora do estético extremamente eficaz, porque sua presença está intimamente ligada à “intuição íntima” do sujeito contemporâneo. “Se não pode convencê-los, confunda-os.” Na Era da Informação, mestre é quem sabe confundir com respeito.

Revista Beta, primavera de 2010.

Texto escrito em parceria com Frederico Tavares.