
Como penso o Amor de Deus
Sobre o que conheço, somado a experiência de muita gente, das ciências e culturas, ainda não tive a capacidade de admitir, mesmo que seja evidente e que haja no inconsciente coletivo, um espaço, uma larga lacuna a ser ocupada de que haja algo infinitamente superior sobre mim. É de assustar os argumentos contrários quase sempre fruto de uma defesa caprichosa, sem amor, que não edifica, apenas estagna as consciências ou paralisa o que há de mais belo e nobre no homem, a pureza original sem mácula do Espírito eterno.
É cada vez mais inadmissível que uma superior amabilidade, vontade e sabedoria pudesse Ser e Estar. Não é necessário ter uma fé apurada e consistente, mas é falta de humildade não render-se ao fato de que a vida que vivemos se estabelece sob um prisma infinitamente aquém da nossa própria admissão, desde o instante em que somos concebidos, até o momento derradeiro, não há a menor capacidade de detê-la, adiantá-la, acrescentar, diminuir ou desviar o curso.
Atribui-se como delírio, a indistinguível capacidade de amor, que se ocultou, mas que estabeleceu ordem e leis naturais que expressam inteligência e vontade. Dizem ser Deus, a maior invenção da mente, fruto da solidão insuportável do homem, que se ressente neste ponto remoto do universo de ser o único ser, que busca companhia proporcional, um sentido de pertencimento. Um órfão que atende por mãe a substância da matéria, mas porque que não se render a um desígnio por pai?
Por convicção, há em mim um protesto não litigioso, onde atribuo ser a maior invenção da inteligência humana, a sofisticada máquina intelectual, científica e religiosa, que concorrem dissimuladamente à esquecê-Lo, manipulando a autonomia da fé, e encerrando-O dentro de uma forma sacralizada, dimensionando as engrenagens, banalizando o Criador dentre milhares de deuses, aterrando o vazio existencial em mitologias e crenças.
Deus está presente em tudo, refletindo amor na beleza de suas longânimes obras, altruísta, jamais se ufanou, não ressentido, paciente, que tudo suporta, que pensou engenhosamente no bem, que não se exalta por nada. Em nome do amor que é seu Nome, o Criador se deleita na humanidade, tudo sofre e espera, até mesmo o desprezo, mas sobretudo o retorno aos seus braços. É por amor que seu único interesse é mostrar o caminho mais excelente, que é o fim da fé e da esperança que esta alcança, que se não O conhecer em seu amor, nada serei e de nada valerá.
O amor me faz observado, pelas correntes que inundam minha alma, me dando certeza que sou querido, sem nenhuma arrogância, que sou parte da natureza divina. Foi o amor que gerou a vida, e fixou leis internas, amorosamente previdentes, a ponto de me criar semelhante a Si mesmo, cheio de graça, dotado de eternidade, um ser auto reconhecível, o único cingido de essência espiritual.
O reino de propósitos
O dom da existência é irrecusável, o propósito é justamente desfrutar e exercer o amor, a bondade, a gentileza e empatia, a alegria, a compaixão, a justiça, a paz, a fidelidade, a benignidade, a humildade... contra estas coisas não há restrições, mas uma corrente de pulsação interior, que conduz diante das mais belas virtudes do Criador, é o seu aroma, elevado e generoso. É o reino dos propósitos, e mesmo na retaguarda, honrosamente me pôs a frente, por amor, na primazia da criação.
Apenas o amor, o bom e o bem generoso, que faz porque quer, graciosamente e gentil. A sabedoria da engenhosidade é vista na natureza, mas a revelação categórica do Criador, está no amor. Quer amar, fazer perfeito e pleno, agregar, favorecer e interagir onde não há bondade nem relacionamentos aproximados e permissões. O Criador doa a Si próprio, se apresenta amando, e nada mudará, mesmo que o medo, o ódio e a ignorância sejam o tom mais expressivo da sociedade humana longe Dele.
Sem genealogias, de eternidade a eternidade, sua sabedoria constitui-se em amor e amar, tão incompreensivo a maneira humana, que fechada em si mesma foi sabotada por um sistema de viver sem sentido. O amor navega suavemente por águas revoltosas, mas arde em compaixão, se mantém no alvo, revelando que dar é melhor que receber. Em troca desse amor doado, apenas quer amar, não se iludindo na expectativa da retribuição.
O amor desenvolvido e equivocado, que se sentou no trono dos relacionamentos humanos, reflete a maneira rasa do que se pensa a respeito.
No conceito de amor emocional disponível, é imprescindível a troca e os investimentos reivindicáveis. Quando se afirma ser Deus amor, o raciocínio confuso que se apresenta é que Ele está em débito, já que não cumpre seu dever, de satisfazer as vontades, não dando importância às coisas que o próprio homem pensa ser superior, o amor correspondido, maniqueísta.
O que seria tão mais importante, do que conhecer a própria origem, natureza e propósito, e de ter sido propiciado o encontro com a fonte da vida? A coisificação da vivência, ergueu prisões, muralhas insensíveis, que fizeram do homem um ser atrofiado. Quem será capaz de amá-lo? Quem dignificará essa criatura destinada ao amor, mas que possui a eficiência odiosa em destruir todo o esforço de integridade e bondade na originária vontade da criação? A verdade sobre amor não é um fato a se saber, mas uma responsabilidade a tomar para si.
Incapaz de enxergar nitidamente que sou o lugar da habitação desse amor, não admitia essa tamanha significância, como se primeiro houvesse uma causa, um merecimento ou justiça para tanto, felizmente não há, isso é graça, essa singularidade é de graça, única possível no espaço/tempo. Ele governa eternidade, e o maior ato dessa vontade é ser em nós seu ponto de chegada, dar ocasião ao amor, inventando o tempo para amar e ser amado e ser conhecido de todos.
Soberba, pensa-se ser muito mais fácil, se auto conceber como uma exibição aleatória, sem razão e propósito, uma essência oca, gelada ao último grau de frieza existencial, na obsessão pela versão que se inventou das origens, tudo por achar que o amor manifesto, está tão longe e que seria inatingível, uma vez que a contrapartida, o troco sem pacto firmado a ser retribuído seria impagável.
Que poderia eu dar em troca do ar, da água, da chuva, do sol, do solo fértil, das plantas, dos animais, das crianças e de todo o universo que inspira a composição que embala meu coração? Ao escutar essa música, ouço a canção de Deus declarando: eu te amo, é porque eu te amo, apenas te amo.

Destino de quem ama
Humildade estabelece meu lugar na diversidade da criação, sabendo, que não foi por minha causa exclusiva que tudo veio a existir, mas sim porque Deus ama aquilo que lhe é próprio. Em vontade e propósito fui gerado e incluso na consequência de sua bondade, proporcionando interação, afeição, importância, ministrando e servindo a mesa o alimento que me sustenta, O Criador me ama, e sua vontade é que eu reproduza seu desígnio, a única contrapartida é repartir o que Dele recebi, o amor.
Então, o destino de quem ama é a entrega, a dação, é a perda em favor. Antes da existência, o amor é o nexo original da natureza eterna do Pai, e o propósito do amor é transformar o mundo a partir de mim. Por isso, a entrega feita em nome do amor, a renúncia de si própria por amor, sempre é a favor de alguém e do outro, tudo ao meu redor e na consciência aponta para esse alvo, é a graça sendo multiplicada, não há quem mereça ser amado, mas há em Deus, quem aprendeu amar. Deus é amor.
advedmaia@gmail.com
