Minha primeira crítica de vinho por quem não entende de vinhos

Costumo dizer que minha especialidade é fazer coisas que eu não sei. Por exemplo, mexer com a instalação elétrica da casa, tocar piano com uma partitura à minha frente, falar italiano. Sim, eu realmente poderia dizer que fazer algo que eu sei fazer, ou que penso que sei fazer, é muito sem graça. Possivelmente eu não sei fazer bem algo que eu sei fazer, pois a segurança e a familiaridade constantemente nos deixam relapsos e arrogantes. Agora, bom mesmo é fazer uma coisa que eu não sei, aí sim, me dedico com afinco, e sinto que estou me ocupando realmente de algo que nasci para fazer. Não entendo nada de instalação elétrica, por isso é minha especialidade perder tempo com uma simples tomada de vinte amperes na mão e muita ferramenta inapropriada, separada sem nenhuma necessidade. Ninguém faz isso melhor do que eu, como ninguém faz melhor do que eu uma introdução desnecessária a um texto.
Eu poderia muito mais facilmente tocar o piano sem uma partitura do que com uma partitura. Eu não leio com fluência, então a partitura tem para mim a enigmática função oposta àquela para a qual foi feita. Ela não me permite tocar, o que é exatamente o contrário do que ela faz com todas as outras pessoas que tocam piano. Então, tocar piano com uma partitura à frente é algo que eu faço maravilhosamente bem. Todos ficam sabendo que eu estou tocando com uma partitura. No caso de um pianista não especialista nesse ato, todos veem apenas alguém tocando piano, não alguém tocando piano com uma partitura à frente. Talvez agora tenha ficado claro o que significa o fato de minha especialidade, aquilo que eu faço de melhor, ser dedicar-me ao que não sei. Ninguém melhor do que eu deixa mais óbvio que não sabe mexer com rede elétrica quando está mexendo com a rede elétrica. Normalmente alguém faz isso sem que se perceba que se está mexendo com a rede elétrica; ou pode ser que alguém nem chegue a fazer isso, pois não sabe fazer isso, mas também não é um especialista no que não sabe. Eu, pelo contrário, além de não saber, sou um especialista nesse tipo de coisa.
Bom, isso tudo para dizer que ando me dedicando aos vinhos. Recém-casados, ganhamos, minha mulher e eu, uma adega que não sabemos usar e fomos presenteados com variados vinhos que não sabemos apreciar. E desde então estou tendo o privilégio de exercer também essa especialidade, que é a crítica de vinhos feita por alguém que não sabe nada de vinho. Veja bem, não se trata de fazer crítica de vinhos para quem não sabe nada de vinhos (o que normalmente é o papel da crítica normal), nem muito menos fazer crítica de vinhos para quem entende deles. Nisso eu sou menos especialista do que em fazer crítica de vinhos feita por quem não sabe fazer isso, pois isso é o que eu faço muito bem. Então vamos lá!
Abrimos um vinho tinto alentejano de 2017. Gosto muito dos vinhos portugueses, de verdade. No começo, cítrico, muito cítrico. Os críticos dizem às vezes palavras como “elegante”, mas eu não consigo atribuir a um vinho algo que atribuo a um terno, como não sei muito bem o que poderia querer dizer se alguém dissesse que seu suéter é frutado. Então, para mim, o “Mágico” não tem nada de elegante, apesar da cartola no rótulo. Minha esposa estava ao meu lado, atenta; creio que o abrimos para acompanhar uma abobrinha que ela mesma também fez esplendidamente pela primeira vez. Ninguém faz uma abobrinha pela primeira vez tão bem quanto ela. E ela estava ansiosa olhando para mim e perguntando o que eu tinha achado do vinho. Então eu disse três palavras sincopadas: cítrico, morango e infantil. Não me preocupei muito em articular essas três coisas, que eu estava simplesmente apontando como “notas” que eu percebia ao paladar, como três notas que eu toco ao piano se me derem uma boa partitura. Algum tempo depois, veio a frase: tem gosto de danoninho!
Vamos ver, ela disse, e foi abrir uma crítica séria, mas não especializada como a minha, de “Mágico 2017”. Encontrou algo como “acidez, frutado e baunilha”. Pois, eu agora tinha certeza de que era um crítico de vinhos. Podia fazer isso melhor do que um crítico, simplesmente porque não entendo nada de vinhos. Posso fazer isso melhor do que quem entende. Pois um crítico jamais diria o que eu acho que é profundamente a verdade sobre este interessante vinho alentejano: é danoninho para adulto. Eis aí, caro leitor, o meu debute como crítico especializado de vinhos. Se tiver comprado ou estiver pensando em comprar uma garrafa de “Mágico”, penso que está aí o que precisa saber sobre ele. Não é que seja ruim, é apenas o que você precisa saber. Tem adulto que gosta de danoninho; eu conheço muita gente crescida que brinca de pipa ou sai do jogo quando começa a perder.
Arthur Grupillo é jornalista e crítico estreante de vinhos.
