Menos propósito e mais direção

Texto originalmente publicado em 15/01/2019 no Linkedin de Santiago Andreuzza.

Esses tempos assisti novamente o keynote do Dave Grohl no SXSW de 2013, que conta sua trajetória como músico e traz reflexões importantes sobre respeitar a sua originalidade.

Em um trecho do vídeo ele explica que o Nirvana tinha “achado sua voz”, ou seja, Kurt, Krist e Dave haviam atingido o ápice musical, e, logo mais, explodiram com seu grunge rock numa época em que a música pop reinava. Durante sua fala, defende que não existe certo ou errado, mas que existem maneiras diferentes de fazer as coisas, sempre enfatizando a perseverança em “achar a sua voz”.

Kurt tinha o objetivo claro de ser a maior banda do mundo. Dave e Krist tocavam em busca de suas próprias verdades.

Somando a história desses gênios do rock com reflexões pessoais em relação a negócios, tenho questionado certas premissas da “nova” economia.

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1. Propósito como pilar central:

Quem inicia uma empresa com um propósito redondinho, daqueles bonitões de prateleira, é uma exceção. Encontrar a razão exata para abrir o seu negócio ou trabalhar em algum lugar é difícil.

A definição de um propósito é relativamente fácil, porém, realmente colocar a mão na massa pela causa é um pouco mais complicado. Já presenciei justificativas para o sucesso do negócio no tal do propósito, seja no business como um todo ou em partes isoladas como equipe, entregas e produtos. Desconfio dessa afirmação, pois não conheço nenhuma empresa que teve o seu propósito definido pelo grupo. As pessoas tem motivações diferentes para estar ali: realmente a causa, vertentes dentro da causa, recompensas que a causa gera, e também tem aquelas que não fazem ideia de porque operam pela causa.

2. Há crescimento no mar de dúvidas:

Pessoas que tem dúvida de onde estão, geralmente são julgadas como indecisas, em cima do muro e rotuladas como “as pessoas que se deixam levar pela maré”. Acho isso injusto e excludente. Talvez elas não tenham respostas porque não formularam perguntas cruciais, isto é, elas estão indo para uma direção, independente do rumo final.

A Carolina Bergier — uma pessoa que entende e estuda muito o assunto ‘propósito’ — tem um texto que traz um reflexão parecida:

“Não deixe de caminhar. Mesmo que não saiba para onde ir, caminhe.

Erre, descubra que aquele não era o caminho.

Saber o que você não é faz com que você se aproxime do que é.”

Temos que ir adiante com foco no aprendizado, analisando cada experiência vivida e entendendo que “estratégia não é o que você faz, é o que você não faz” (um dos meus sócios sempre fala essa frase, não sei a autoria).

Se você ainda não achou o slogan para colocar na sua bio do LinkedIn ou encher a boca quando se apresenta em público, não sinta culpa. É mais nobre você admitir que tem algumas certezas em relação ao que quer fazer do que colocar uma frase genérica e justificar tudo na amplitude dessa escolha, apenas para dizer que você tem um propósito bem definido e politicamente correto.

3. Muitos caminhos que levam para o mesmo rumo:

Percebo que algumas pessoas que estão no mercado há mais tempo, ao ver essa onda Simon Sinek (não é uma crítica a ele), se sentem obrigadas a transformar suas vontades em certezas de forma rápida, com pouca referência do que estão acostumadas a enxergar.

Me pergunto se isso é realmente saudável e genuíno. Observo que as gerações mais novas encaram seus trabalhos — sejam fixos ou temporários — como convicções dentro de lacunas que fazem sentido em algum âmbito ideológico. Talvez seja por isso que quando levantamos a hipótese de que uma pessoa vai ter mais uma de profissão no mesmo espaço de tempo, a galera mais nova encara isso com naturalidade. Enquanto nós, que ainda temos premissas mais estáticas do que dinâmicas, vamos defender que quem faz mais de uma coisa não faz nada bem.

E assim vamos indo: enquanto tem gente que ainda precisa descobrir o real motivo do que faz, tem gente que está surfando as ondas que a vida proporciona para fazer parte das coisas que acredita.

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Quando percebi que posso ver um sentido e um norte nas intenções — mesmo quando as ações ainda estão em zonas cinzas — me libertei de ter que lutar por uma certeza absoluta.

Um dos momentos de catarse que tive em relação ao tema foi quando saí de uma reunião com um grupo de sócios e vi uma frase num talk da Andrea Bisker — fundadora da Spark:off e Head da Stylus Brasil — que dizia: “as certezas envelhecem”.

Qual o meu propósito? Não sei o meu slogan.

Para onde quero ir? Meu norte é unir tecnologia e aprendizagem.

Como? Trabalho em projetos que façam sentido para eu ir em direção ao meu norte.

Com quem quero trabalhar? Com quem gosta de mim, de tecnologia, de aprendizagem ou apenas vê algo que faça sentido dentro desse universo.

Lembre-se: se você não sabe exatamente qual o seu propósito, está tudo bem. O que realmente importa é a sua postura em relação à direção que você quer seguir.

Beijos e abraços pra quem chegou aqui.

Santi.