Por que estou voltando para a universidade?

Texto originalmente publicado em 17/01/2019 no Linkedin de Simone Gasperin.

O ensino superior passa por um momento de grandes questionamentos. Seja em grandes corporações ou em pequenas empresas — especialmente em startups de tecnologia, ter um diploma não é mais um diferencial. O conhecimento continua importante e pode ser adquirido de outras formas: autodidatismo, experiência profissional, cursos de menor duração, Youtube (que é o principal método de aprendizagem para 59% da geração Z, segundo pesquisa da Pearson). A esse fato podemos acrescentar uma camada de habilidades que não são ensinadas nas faculdades tradicionais: multidisciplinaridade e alta capacidade de fazer conexões, agilidade emocional, problem solving, pensamento exponencial, capacidade imaginativa e colaboração, só para citar alguns.

Trabalhando com ‘exploração de cenários futuros’, lido diariamente com esses temas, além de estudar outros assuntos relacionados a novos modelos de negócio, tecnologias emergentes (e sua aplicação na educação / aprendizagem), empregabilidade, lifelong learning e outras buzzwords que fazem parte desse contexto.

Considerando isso, pode parecer incoerente minha decisão de, aos 35 anos de idade, estar voltando para a graduação. Mas a verdade é que essa é uma vontade antiga potencializada por movimentos mais recentes. Divido aqui algumas das minhas reflexões:

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  1. É tudo sobre pessoas

Sempre gostei de Psicologia. Entender o comportamento humano sempre me fascinou. Fiz algumas disciplinas de Psicologia na faculdade de Comunicação, li bastante sobre o tema e há alguns anos fiz um curso de Gestão de Transformação com a condução de uma psicóloga que me provocou muito, tanto em termos de autoconhecimento como de entendimento de relações humanas.

Hoje, quando aplicamos programas In Company e falamos sobre grandes revoluções tecnológicas, encontramos empresas com conhecimento, verba e talento conseguindo perceber sinais, mas não sendo capazes de operar mudanças. Os motivos vão de bloqueio a transformações, passando pela incapacidade de alternar lideranças até a consolidação de tribos isoladas que não permitem multidisciplinaridade, colaboração e, com isso, inovação.

Mais do que nunca, vejo o quanto é importante agregar ao meu background maior profundidade e repertório relacionado às questões humanas.

2. Também é tudo sobre tecnologia

Não é novidade que as novas gerações não sentem as mudanças do impacto da tecnologia. As mudanças por sua vez além de serem mais rápidas, também são intensas e transversais. Entender a tecnologia de forma holística, analisar sua capacidade e absorver suas potencialidades, em qualquer área, já é mandatório. Nesse contexto, existe um campo enorme e inexplorado para o cruzamento da tecnologia com a psicologia. Lendo o livro Como a Mente Funciona, do Steven Pinker, é possível entender o quanto os experimentos de inteligência artificial e a construção de rede neurais tem ajudado na exploração da mente humana.

Além disso, outras tecnologias como realidade virtual podem ajudar — e muito — no tratamento de problemas psicológicos, como fobias, apenas para citar um exemplo.

Num cenário em que doenças como depressão atingem números alarmantes (segundo a OMS, a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo) o uso da tecnologia aliada à saúde, de forma escalável, é uma pauta urgente.

Recentemente fizemos um experimento que permite o uso da realidade virtual para promover o autoconhecimento:

3. Base científica

Num momento de pós-verdade, em que nos deparamos com um grande número de fake news e de crescimento de pseudociências, reforço minha tendência a buscar informações confiáveis. Uma área como a psicologia tem sua base em teorias que surgiram a partir do método científico: ou seja, do levantamento e do teste de hipóteses. Há um enorme valor nisso, que, infelizmente, muitas vezes se perde ou se afasta das pessoas (e dos processos de inovação) pelo excesso de academicismo existente no ambiente das universidades.

Sou ouvinte assídua do podcast Naruhodo em que o psicólogo PhD Altay Souza discute uma série de temas (dos mais profundos aos mais banais) sob o ponto de vista da ciência. É um conteúdo incrível que me fez ver o quanto era necessário aprofundar meus conhecimentos. Como ouvi esses dias no Braincast: a internet nos permite explorar um oceano de informação, mas com um palmo de profundidade.

4. Aprender a Aprender

Um dos meus sócios, o Igor Oliveira, diz que gosta de aprender mas não de estudar. Eu acho que tenho um perfil mais CDF: gosto de estudar, gosto de aprender. Como trabalhei por muito tempo com comunicação, uma área que mudou drasticamente nos últimos anos, nunca parei de buscar atualizações e novas referências. Gosto desse texto em que o Eco Moliterno, da Accenture, sugere que as pessoas questionem se o que elas fazem hoje é futureproof.Acredito que, inconscientemente, sempre me fiz essa pergunta.

Sempre me coloquei na posição de aprendiz e nunca tive problemas em relação a isso. Então voltar para a graduação para mim não é retrocesso, é brilho no olho.

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Disclaimer: Talvez eu desista no primeiro semestre. Talvez lá pelo quinto.

Talvez eu me forme. Aprendi aqui na Aerolito a ser menos causal e mais efetual.

Um passo de cada vez.