Meu primeiro fim do mundo

Sobre a chegada do ano 2000

Junto às paranoias próprias da infância, eu tive que lidar com todos os preparativos para a chegada do século XXI. Eu tinha nove anos e, em 1999, ninguém parecia ter muito mais que isso.

O fato é que o meu primeiro fim do mundo foi um evento muito bem planejado — o mais bem planejado de todos até hoje— e, mesmo que não tenha deixado sequelas consideráveis em minha cabeça, causou um alvoroço tão grande no mundo que, certamente, influenciou de alguma forma na construção do meu caráter (ou qualquer outro aspecto psicológico). Foi, seguramente, o evento que uniu todas as tribos.

É que em 1999 — número este, que se pusermos de cabeça para baixo, teremos 1-666. Reparem!) eu completaria 10 anos e já estava convencida de que minha vida não iria além disso. Estranhamente, não lembro de lamentar essa possibilidade. Talvez pelo fato que ninguém passaria daquele ano, logo, iríamos todos juntos para o mesmo lugar, ainda que eu não soubesse que lugar seria esse. Minha única lembrança relacionada a medo, era de ficar sozinha. E quando eu falo em ficar sozinha, me refiro a ficar sem minha mãe ou minha cadela, a Priscila.

Aos nove anos, eu sabia de algumas coisas sobre a vida: Fernando Henrique Cardoso era presidente do Brasil, Ronaldo Lessa era o governador de Alagoas, Kátia Born era prefeita de Maceió (ainda não havia se banhado no Riacho Salgadinho), eu sempre preferi a Heloísa Helena e já não dava créditos à política. Foi também nessa idade que me afastei da igreja católica e de algumas falsas verdades, desiludida.

Como os fatos históricos já são conhecidos (se você não conhece, pode procurar no Google), vou falar sobre como o erro ou má interpretação dos escritos de Nostradamus influenciou o meu ano de 1999.

1. A viagem
Acquario di Genova

Além da espera do fim do mundo, 1999 foi o ano em que minha mãe e eu viajamos à Itália e foi lá onde eu tive o contato mais próximo do terror que seria o mundo acabar. Paralela a isso, tive uma das experiências mais incríveis que uma criança pode ter: Ver de perto— ainda que por trás de paredes de vidro — as criaturas mais belas com nadadeiras quem existem.

Eu ainda não sei o que uma viagem à Europa traz à cabeça de uma criança que não sabe mensurar a distância entre os hemisférios. Naquela época, qualquer viagem, de qualquer distância parecia uma volta ao mundo. A minha mãe não acreditava que o mundo acabaria (pelo menos, não era perceptível) o que, de certa forma, me tranquilizava.

Depois de mais de 24h e quatro escalas, pulando de um avião para outro, sentindo dor de morte nos ouvidos, chegamos ao nosso destino. De repente, eu estava em um filme e passei a atuar. Estava decidida a aproveitar aquele mês como uma adulta e, a partir dali, meus nove anos se tornou uma lembrança. (Não sei bem o que significava ser adulta para o meu eu de nove anos, mas era algo que eu via nos filmes e queria aquilo. asseguro-lhe que fui uma criança de nove anos).

O clima era menos frio do que eu esperava e as pessoas mais frias do que eu desejava. “Brasilianas?” e uma torcida de pescoço sucedia. Não era sempre que acontecia e conhecemos umas pessoas bem legais. Lembro que havia uma promessa recorrente, entre eles, de uma visita ao Brasil no ano 2000 e algumas gargalhadas, seguros de que o ano seguinte não chegaria.

Além da visita à Ilha de Sardenha (ali sim parecia que todo mundo acreditava no fim do mundo), um comercial de presunto, um cemitério em Gênova, o aquário foi uma das experiências mais marcantes daquele mês e, por incrível que possa parecer, nada de marcante aconteceu. Talvez pela sensação de infinito, enquanto expectadora andando no fundo do mar. Eu andei por arraias e tubarões, o mundo não poderia acabar.

Sou contra o conceito de zoológicos e aquários. Acho cruel a privação da liberdade dos animais para exposição e essa lembrança, por ter sido uma experiência maravilhosa, ainda me causa conflito. Eu não sei o quê, exatamente, foi maravilhoso nessa visita, mas sei que foi assim.

Pouco depois que voltamos da Itália, eu fiz 10 anos e era outra criança. As pessoas que prometeram visitar o Brasil no ano 2000, de fato, nunca vieram.

2. Suicídios e Carpe Diem
Tragédias

Como você reagiria se tivesse a certeza de que seria seu último ano de vida? Bem, foi exatamente isso que aconteceu. Na tentativa de achar uma resposta para essa pergunta, grande parte da população (pelo menos a que estava à minha volta), enlouqueceu.

Eu posso estar exagerando e antecipo que não pesquisei sobre os acontecimentos de 1999 para embasar minhas afirmações, visto que estamos aqui tratando do meu mundo. Acontece que houve suicídios, ao menos os que chegaram aos meus ouvidos, mais de um. Na minha cabeça, os últimos meses daquele ano foram de caos. Eu soube de fulano que se jogou do edifício Breda e sicrano que pulou da ponte ou passarela e morreu. Eram alguns fulanos e sicranos. Só não me parecia muito eficaz fugir da morte com a morte, mas nunca fui qualificada a julgar soluções.

A parte a isso, eu soube de alguns que resolveram gastar todo o dinheiro que tinham. Largaram emprego, casamentos, partiram para o mundo e voltaram falidos. Soube também de outros estocando alimentos e até hoje eu não sei como isso ajudaria se o mundo, de fato, tivesse acabado.

3. Símbolos da Nova Era
Algumas boas risadas

Entre as groselhas perpetuadas como verdade em 1999, os símbolos da Nova Era. A minha surpresa, ao relembrar esses acontecimentos, é que os cristãos mais fervorosos conseguiram mesmo emplacar esse negócio de símbolos como algo satânico. Acontece que os tais símbolos era a reunião (ainda é) de todo e qualquer elemento de outras doutrinas, ou seja, qualquer coisa que não seja cristã, se torna automaticamente satânica. Hoje eu consigo dar boas gargalhadas desses símbolos, claro que sem desrespeitar a crença do pessoal que vê o demônio na logo da Coca-Cola.

Têm uns símbolos até conhecidos, como a cruz de cabeça para baixo, o número 666, a estrela de cinco pontas que, segundo eles, representa o reinado de Lúcifer, entre muitos outros. Mas quando chegamos à parte da representação satânica em um arco-íris, ou até mesmo o desenho de um circulo (gente, um circulo), fica difícil de defender. O que me intriga é o pessoal achar que o desenho de uma borboleta — por exemplo — é algo satânico e, segundo seu significado, representa a transformação da humanidade, que sai de uma Era para outra. Veja bem que essa Nova Era, a Era aquariana, não é favorável aos princípios cristãs. Logo, a pobre da borboleta, representa a degradação da humanidade. Eu só espero que a tenham consultado sobre isso.

Não que toda essa manifestação de fanatismo tenha se iniciado em 1999 (parece que começou nos anos 60, porém não posso afirmar com certeza), mas estamos falando de um fim do mundo agendado para o ano seguinte. De toda forma, se o ano não acabasse, o pessoal religioso teria muito trabalho para defender o mundo dessa Nova Era. Parece que estão tendo.

Depois de um tempo, eu andei pesquisando sobre a Era de Aquarius e, sinceramente, seria meu sonho.

4. Não acabou 
(Que grande novidade)

O reveillon do ano 2000 não foi o primeiro anúncio de fim do mundo e, certamente, não foi o último. Tudo bem que os chineses não participaram desse espetáculo histérico, mas vamos supor que tenha sido um evento tão grandioso quanto o julgamento da minha pessoa de nove anos.

Outros fins do mundo sucederam o ano 2000. Eu presenciei, pelo menos, dois deles só neste ano (e ainda estamos em agosto). Outro fim do mundo marcante foi o de 22 de dezembro de 2012 (Sim, os Maias), mas eu estava lindando com um parto nesta data e isso cabe em muito mais linhas que estas.

Para finalizar (já era hora), quero registrar que no primeiro minuto do ano 2000, estávamos todos vivos com taças de champanhe (no meu caso, refrigerante) no quintal de casa e, os adultos voltaram a ter a idade recomendável para a vida adulta. A verdade é que eu me sentia como quem ganha uma aposta. Eu apostei que o mundo não acabaria e, desde então, ele nunca mais acabou.

Onde você estava no seu primeiro fim do mundo?