Reflexões (clichês) de aniversário

Eu já tenho 27 anos, pois segundo o meu registro de nascimento (e a memória dolorida da minha mãe), eu nasci às 11h45min do dia 20 de setembro de 1989 e já no primeiro parágrafo deixei —quase — todos os dados para o cálculo do meu mapa astral. No entanto, 27 foi o número que me levou a escrever estas palavras. Muito provavelmente porque este é o primeiro ano que decidi tratar sobre a vida. Não que antes eu não tenha tido motivo para isso. Os meus motivos todos têm registros de nascimento.

Este é meu primeiro texto sobre aniversário e eu não sei por onde caminhar.

Já que iniciei tratando de números, gostaria de dizer que imaginei toda a minha vida adulta, quando criança. O que me levaria a traçar um paralelo do que almejei ser e o que eu sou. Eu gostaria muito disso, mas não posso. É que há pouco mais de uma década eu havia decidido que não passaria da adolescência e quase não passei e, desde então, evito planos a longo prazo. Sobre a infância, lembro que queria ser veterinária (perdoa a jornalista e não desiste de mim, Milena).

Os sonhos de ofício, ainda na infância, me fazem refletir sobre o sentido que damos às nossas vidas. Imagina se, ao nascermos —insira a divindade — escolhe nossos planos de vida pela profissão ou pela troca alianças e assinatura de papéis. Quem sabe, o nosso destino se resume, de fato, à marca da bolsa e do sapato. Mas não acredito nisso e aconselho a também não acreditar. Deve haver algo além da formalização social e certamente há. Porque se você morre, neste exato momento, o que acontece com o diploma que deixar?

Voltando ao meu dia de aniversário, haviam duas vozes me acompanhando. Uma delas, com 130 anos, me contou histórias de desesperança sobre uma estrada que leva ao fim, mas te deixa perdido no caminho, sem possibilidades de seguir ou voltar. A outra, que não devia passar de quatro anos, sabia tantas coisas em gargalhadas. Eu não soube a quem dar ouvidos e continuo nesse híbrido, um meio termo perdido. Recebi felicitações enquanto criança e chorei toda a culpa de dez décadas. Por quem poderia estar aqui, entre tantas outras lágrimas.

Eu poderia falar sobre a fatalidade do “Clube dos 27", mas creio que não me represente nenhum perigo aparente, já que eu mal sei notas de violão.

Gostaria de ter escrito uma crônica divertidinha e, quem sabe, teria sucesso em escrevê-la se estas palavras tivessem vindo me visitar ao começo do dia de aniversário. Dessa forma, seriam mais que devaneios de uma noite de inverno-quase-primavera. Era para ser crônica e, mesmo não se sustentando como tal, insistiu em permanecer. Igualmente permaneço, no sorriso de quem chegar, refletindo o amor que vier.

Eu tenho tentado ser leve e até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que terá um sorriso como retribuição ao olhar. E como diz a minha descrição aqui: Eu não controlo sorriso nem choro (depois que começa). Também não controlo engasgos e espirros (é muito improvável que alguém controle).

“Feliz aquele que preenche a vida de amor”

(Frase aleatória que vi em algum lugar da internet e não sei de quem é)

E se passarmos a adotar o amor como forma de preenchimento, não mais precisaremos correr em busca da felicidade.

E nas primeiras horas do meu novo ano, eu decido que quero ser sempre melhor. Que um dia eu saiba lidar com a culpa que dói e a saudade que não passa.

A quem me conhece e leu estas palavras: Obrigada por permanecer e desculpa qualquer coisa.

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