Me sinto inseguro vivendo aqui ou em qualquer lugar
Vez ou outra olho pela janela do meu apartamento e me deparo com alguém subindo ou descendo a rua como se estivesse fugindo de um monstro, dando passos largos e velozes para alcançar o quanto antes a avenida principal do bairro, ou a frágil segurança do seu lar. Na verdade, essa é uma cena a qual venho vislumbrando e protagonizando cada vez com mais frequência.
É humilhante, me sinto um covarde por ficar andando rápido por aí, por olhar em todas as direções a todo instante enquanto caminho, por analisar esquinas com metros de antecedência e por duvidar pecaminosamente da bondade e honestidade de qualquer um que se aproxime. Mas é inevitável. A cada nova notícia, a cada novo relato, ou pior, a cada nova experiência, torna-se insuportavelmente inevitável.
Antes que me tomem por lunático, saibam que o monstro o qual me refiro não se trata de nenhum ser horrendo, que saltou da ficção fantástica para o nosso mundo. Antes fossem, pelo menos teríamos super-heróis capazes de detê-los, não? Mas trata-se do monstro da insegurança, que atormenta cada vez mais compatriotas infelizes nesse nosso brasilsão inseguro.
Talvez eu seja mole demais, medroso demais, paranóico demais. Até concordo. Mas a verdade é que sempre fica um trauminha foda quando você fica na ponta de uma arma e alguém leva algumas das coisas que você tem, inclusive uma parcela da sua coragem. Seu único conforto é o fato de não terem levado a sua vida junto.
Pois é, depois do azar, o mundo passa a exercer outra realidade dentro da sua cabeça. Ou talvez essa seja a realidade verdadeira que você ainda não conhecia. Nos dias seguintes você tem medo de ir trabalhar, medo de ir no mercado, medo de ir na padaria, medo de qualquer coisa que exija sua interação com a selva lá fora. Cordão, pulseira, relógio, óculos de sol, aquela roupa melhorzinha que você tem no armário? Não, obrigado, chama muita atenção! Aliás, deve ser por isso mesmo que não consigo nenhuma paquera recíproca por aí.
Mas nem tudo está perdido, aos poucos você vai recuperando sua coragem e confiança nas coisas, nas pessoas e nos lugares. Só não em motos e motoqueiros. Percebe que o medo que te assolava vai dando lugar a uma prudência dotada de uma destreza maior e você já está pronto pro próximo susto, pro próximo ciclo de insegurança…
E apesar do breve relato da minha insatisfação com a segurança desse país, não penso em mudar ou revolucionar nada com este texto, nem mesmo criticar de forma ferrenha o descaso das autoridades, nem nada do tipo. Verdade verdadeira, eu queria apenas dar um desabafo, e como não sou muito de falar, escrevi.