GOOOOOL, CHULIPA, É DO BRASIL!!!
Era meu amigo mas nunca me confiou seu nome verdadeiro. Nunca estudamos na mesma sala, mas me defendia quando outros valentões da escola queriam me bater. Todos o chamavam apenas de Chulipa e assim ele atendia. Num país que teve Garrincha, Pelé e Dadá Maravilha como artilheiros, Chulipa não era um mal nome para ser gritado pela torcida da Canarinho.
Nas peladas que aconteciam nos campos improvisados da escola Dom Moisés Coêlho, cansou de mandar beijos para uma torcida que só ele via, mas que estava ali, pronta para vibrar a cada gol marcado. Ser ídolo da seleção era uma de suas ambições na vida. As outras eram ter dinheiro para comprar uma casa com piscina e ostentar uma L200 na garagem.
Mas mesmo nos seus incipientes 14 anos de idade, e, embora estivesse longe de realizar os seus sonhos, Chulipa era imponente e temido pelos colegas de escola. Primeiro pela intimidade com a bola. Era o chute de esquerda mais violento e certeiro que tive notícia. De baixa estatura, mas corpulento, passava pelos adversários como um trator, quando o seu vasto repertório de dribles não bastava.
Até os professores de educação física diziam que era só esperar mais dois anos e ele teria uma chance de defender o Atlético de Cajazeiras no Campeonato Paraibano. “Isso se antes não fosse assassinado ou preso”, frisavam.
E este era outro motivo para Chulipa ser temido. O que lhe sobrava de talento no futebol ele esbanjava em expertise na delinquência. Não havia viatura da Policia Militar de Cajazeiras-PB em que não tivesse “passeado”. Velho conhecido dos “samancos”, como costumava se referir aos homens de farda, usava seu repertório de dribles para despistá-los.
Dos pequenos furtos na feira de rua da cidade a avião de tráfico foi um pulo. Não havia o que esperar da escola, visto que só a frequentava pela oportunidade de jogar bola num campo decente e comer baião de dois com carne de charque na merenda. Gostava de camisetas e bermudas de marca, e, sem emprego, precisava se virar. O que a mãe ganhava como lavadeira mal dava para comer e pagar o aluguel de um casebre no Ferro de Engomar, uma das comunidades mais perigosas e pobres da cidade.
A última notícia que tinha do pai era de que tinha levado uma surra em Maria de Mauriti, um dos cabarés das redondezas: “comeu e não pagou tem que apanhar mesmo”, dizia Chulipa sem demonstrar qualquer compaixão. Ameaçado de morte por não honrar dívidas com gente perigosa, o pai sumiu no mundo deixando a esposa com um aglomerado de bocas para alimentar.
Quem podia chamar Chulipa de amigo, sabia o porquê daquilo tudo e até entendia seus motivos. Para os outros era apenas um dos bandidos juvenis mais perigosos da cidade.
E pouco a pouco a atuação no mundo do crime, com assaltos, agressões e porte de drogas foi colocando a performance nos campos de pelada em segundo plano. Nunca defendeu o Atlético, muito menos foi convocado para a Seleção. Quando voltei a Cajazeiras, após 10 anos morando em Fortaleza, tive notícias dele pela última vez, numa visita à sua mãe, no mesmo Ferro de Engomar.
Chulipa havia reencontrado a bola e com ela estava namorando novamente. Não mais na escola Dom Moisés Coêlho, mas no presídio Serrotão, em Campina Grande. De ídolo das peladas do campinho da escola, passara a artilheiro da Liga Penitenciária, durante os banhos de sol. Na parede sem reboco do casebre estava uma fotografia deixada pelo próprio Chulipa, no indulto de Natal do ano anterior. Nela, ele aparecia com o pé em cima de uma bola, num campo de terra batida. Não parecia ter crescido muito, porém estava mais gordo. Vestia uma surrada camisa da Seleção Brasileira. Chulipa, enfim, havia realizado o sonho de defender a amarelinha.