De sofá em sofá fazem-se histórias

Por Ana Duarte e Débora Afonso

O que é o couchsurfing?

João Duarte, 45 anos, já hospedou mais de 100 pessoas de diversos países na sua casa em Lisboa, durante os últimos cinco anos, tendo sido recebido na Alemanha, Suíca, Espanha e Lituânia. O gestor de marketing e comunicação é host e também organizador de eventos que servem de ponto de encontro entre locais e visitantes.

João, quando falamos em couchsurfing, falamos de quê em concreto?
Falamos numa comunidade de apaixonados por viagens e por experiências. Uma comunidade de “animais sociais” que adoram conhecer pessoas de outras culturas, que falam outros idiomas, ou que simplesmente pensam de forma diferente.
Se não podem alojar ninguém e não estão a viajar há a possibilidade de ficarem apenas disponíveis para mostrarem a cidade ou simplesmente beberem um café.
A comunidade de couchsurfers funciona também através de Grupos. A plataforma tem diferentes fóruns onde os amantes do Couchsurfing organizam encontros periódicos: quer para conhecer outros viajantes, quer para conhecer residentes da cidade. Por exemplo, em Lisboa existe um encontro semanal, organizado por mim, sempre no mesmo local, no café da Ordem dos Arquitetos.

Porque é que as pessoas optam por esta modalidade de viajar em vez do conforto e maior segurança de um hostel, por exemplo, que também é barato?
O principal objetivo é aproximar pessoas, ajudar alguém que está a viajar, mostrar-lhe a cidade, a cultura, os costumes e singularidades locais. Esse é o aspeto mais importante e enriquecedor. Claro que é apetecível fazer uma viagem em que não se paga alojamento mas não é esse o verdadeiro espírito do conceito. Conheço inúmeras pessoas que podiam pagar hotéis de cinco estrelas mas preferem ficar em casa de estranhos, pela experiência e pelo contacto humano que há. Trata-se sempre de uma troca. Sofá com sofá se troca, como se costuma dizer.

Cada vez há mais procura. Somos muito procurados por brasileiros, espanhóis, italianos, alemães ou polacos. Esta rede social tem cada vez mais membros, o conceito chega a mais pessoas de dia para dia. E depois, Lisboa está na moda. Portugal é um país pacífico, seguro e barato, o que atrai cada vez mais turistas seja nesta, ou noutras modalidades.

Não tens receios em abrir a porta a pessoas que nunca viste?
Não. Em primeiro lugar, avalio sempre o perfil de cada pessoa, verificando se é um couchsurfer “verificado” que implica que essa pessoa tenha pago 25 euros e colocado um código para verificar a direcção da sua casa e outros dados importantes. Para mim o couchsurfing é uma filosofia de vida que me enriquece constantemente e que, sobretudo, me abre horizontes que eu nunca imaginei. A rede de amizades e conhecimentos que se cria, aliada à experiência de acolhimento/viajante, desenvolve uma maior abertura a qualquer cultura e partilha de conhecimento. Fazemos parte da jornada, ouvimos relatos de outras viagens, provamos novas comidas, ouvimos outras músicas, aprendemos novas línguas e, com sorte e sem dificuldade, ganhamos mais um amigo. E quem sabe se, um dia, quando formos nós em viagem, poderemos até rever os amigos que conquistámos. Por experiência, é um bocadinho como o karma, recebemos muitas vezes o dobro daquilo que demos.

Fonte: https://www.couchsurfing.com Dados de janeiro de 2017

Anelise é holandesa, tem 23 anos e licenciou-se em engenharia informática. Para si, antes de entrar no mercado de trabalho, este é um ano somente para viajar, estar consigo própria, conhecer outras culturas, abrir a sua mente. Optou pelo couchsurfing, não só pela aventura mas porque acredita “ser a melhor forma de conhecer o mundo”, através da partilha. Desta vez, escolheu Lisboa como destino e, apesar de ser também host, é agora uma guest.

Anelise em Belém

Quantos países já visitas-te enquanto couchsurfer?
Três. Fiz uma viagem de 15 dias pela Europa. 3 países. 4 sofá diferentes. Londres, Milão, Veneza e Madrid.

Porque é que escolheste Lisboa?
Porque as pessoas que tenho conhecido nas minhas viagens deram-me feedbacks e experiências muito boas desta cidade. Foi-me recomendado vir conhecer Lisboa. E depois, porque é uma cidade europeia, segura, relativamente perto e a viagem é barata.

Como é que aconteceu “vires parar” ao sofá do João?
Recorri ao site, pesquisei sobre quem estaria disponível a receber visitantes em sua casa e cheguei ao perfil do João. No site há um sistema de referências, que é o mecanismo que permite criar relações de confiança online, quer estejas a alojar ou a ser alojado. Verifiquei que o João para além de ser um membro muito antigo e de organizar alguns eventos relacionados com o couchsurfing, tinha também muitas e boas reviews de pessoas que tinha recebido anteriormente em sua casa. Então senti-me segura, fiz-lhe o pedido e ele aceitou. Duas semanas depois, eis-me aqui.

Anelise e João em Lisboa
É certo que existem riscos, no entanto podemos minimizá-los. Eu por exemplo, por uma questão de segurança, deixo sempre a morada e o contacto da pessoa com quem vou estar, aos meus pais. Mostro-lhes o perfil, também e estou sempre contactável. É importante saber seguir o instinto também e perceber se alguma coisa está a parecer estranha. Tem de haver sempre um plano b também. Nunca se sabe se temos uma surpresa e chegando ao local não existe pessoa ou alojamento, pode ser acontecer algum imprevisto. Então é necessário ter sempre algum dinheiro de parte caso tenha de ficar numa pensão ou hostel.

Já tiveste alguma experiência má ou menos boa?
Já, tive uma situação constrangedora, sim. Recebi um colombiano em minha casa que ia ficar por 8 dias. Na segunda noite, acordo com ele sentado aos pés da minha cama dizendo que não tinha sono. Fiquei assustada e depois muito chateada. Tivemos uma conversa séria, estabeleci regras, ele pediu desculpa, comportou-se e acabou por ficar os restantes dias. É preciso saber lidar com as situações também e, nem todos o conseguem. Mas faz parte da aventura.

Do que é mais gostas de Lisboa? Que locais visitaste?
Nem só os conhecidos cenários turísticos me encantaram: claro, gostei muito dos bairros de Alfama, do Bairro Alto, do centro histórico e da modernidade do Marquês de Pombal à Avenida da Liberdade, de Belém mas também adorei Alcântara que parece meio abandonada, dos cenários futuristas do Oriente, do rio Tejo. Gostei do cheiro da cidade. Dos contrastes, das pessoas. Adorei os miradouros e as esplanadas. Reparei que a noite de Lisboa também é muito alternativa. Ouvi rock, jazz, techno, fado, música brasileira. Há muitas culturas aqui. Há muito para se ver e aprender. Há História. Gastronomicamente foi uma excelente surpresa também. Ah! E os vinhos. Não posso deixar de referir que para mim os melhores vinhos são portugueses.

Fui muito bem recebida. Levo Lisboa no coração. Os portugueses são afáveis, são bons amigos. Senti-me sempre segura. Quero cá voltar.
Anelise por outros sofás da Europa

Há alguma coisa de que não tenhas gostado?
As obras! Tudo está em obras. Eu pensei alugar uma bicicleta e para além de não encontrar essa possibilidade acabei por concluir que o centro de Lisboa talvez esteja um pouco caótico para os meus passeios. Nós, holandeses, andamos muito de bicicleta.

Tens “reservado” mais algum sofá depois deste?
Sim, dia 10 sigo para o Porto. Vou ficar em casa de um casal que já estiveram em Roterdão, em casa de um amigo meu a fazer couchsurfing. Ficarei lá por 4 dias e depois regresso a casa.

Fonte: https://www.couchsurfing.com Dados de janeiro de 2017

A opinião em relação ao couchsurfing não é consensual. As experiências não são iguais para todos. Existem, de facto, pessoas a quem a viagem e a estadia correu bem mas, por outro lado, há quem não tenha tido a mesma sorte.

Um dos principais fatores que levam as pessoas a fazer couchsurfing é o económico. Ao contrário do que acontece quando se aluga uma casa, ou se opta por ir a um hotel ou hostel, quando se faz couchsurfing não se paga alojamento. A “visita guiada” pela cidade também não implica qualquer pagamento, o que facilita a viagem em termos económicos. Para além disso, é possível conhecer-se novas pessoas, de diferentes culturas e, quem sabe, fazer-se bons amigos.

Por outro lado, surgem também muitas criticas em relação à segurança. De facto, existem muitos casos que não correram bem. Muitas vezes, a pessoa que recebe a outra não tem as melhores intenções e a viagem acaba por não correr como se esperava.

Muitos que fizeram couchsurfing falam da falta de privacidade. Por isso, quando se faz este tipo de viagens tem de se estar preparado para isso, tendo em conta que se vai para uma casa que não é a sua e que é habitada por outros.

Fomos a um evento de couchsurfing num café no Cais do Sodré para saber a opinião daqueles que o praticam.

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