Duas mortes, um acidente e o amor, que tarda

(Sobre a velhice e o corredor em espiral, infinito)

Madrugada alta. O corredor se expandiu. Viu a maca virar à esquerda, os enfermeiros sumirem. A solidão cresceu, virou infinita, em espiral. Súbito, aparece o cirurgião, olha, faz sinal positivo. Ele pega uma cadeira, abre as portas que deveriam estar fechadas, senta no início do corredor, em silêncio. Reza. Ficará ali por horas. Ouve o seu sangue fluir, lentamente. O amor.

Toca o telefone da casa do vizinho que, em seguida, bate à sua porta. Uma ligação de São Paulo, querem falar com você, diz. O telefone de sua casa havia sido cortado. Em pleno final de Plano Cruzado, a falência era só mais um detalhe. Do outro lado, um repórter do Estado de S. Paulo pede um depoimento sobre a morte do antropólogo João Lovaglio. Sua mulher, Ana Salvatore, estivera há dois meses em Belo Horizonte, com ele. Fala qualquer coisa estúpida, atônito, agradece ao vizinho, que olha esquisito. Ana não merece isso, pensa.

Durante a segunda cirurgia, decide ficar com as crianças. No caminho, imagina a cena no hospital, os detalhes, enquanto passa o filme da paisagem urbana. Elas estavam na casa de seus avós maternos. A recém-nascida ainda no berçário, onde ficará por mais 14 dias. Um breve abraço, palavras toscas, sem toda a verdade, evasivas. No fundo de seus olhos, as meninas sentem a mesma solidão do corredor branco do bloco cirúrgico. Volta apressado. Esperará mais uma hora, desta vez na antessala. Não ouve nada. Sem sangue.

À noite, João diz palavras incompreensíveis. Ela entende tudo. Chama imediatamente a ambulância, João dá uns roncos esquisitos. Ana não consegue acompanhar o socorro, ele grita seu nome, ronca alto e faz silêncio. Os paramédicos iniciam os procedimentos de ressuscitação. Três minutos, apenas. O coração. Foi rápido. E começam os telefonemas. As filhas chegam, tomam o controle, vem o desamparo. Quando a ex-mulher, companheira de mais de 30 anos, chega, ela é expulsa, como se fosse natural. Sai, escreve poemas, incessantemente. Era sua função, naquele momento.

Ela não vai conseguir resistir a outra cirurgia, diz um. Mas é necessária, diz outro. O coágulo não vai ceder. E parece que não é só isso. Uma provável lesão de ureter. Ouve opiniões, palpites, participa das análises clínicas. Aumenta o número de especialistas envolvidos. Dr. Lenzer é convocado, de São Paulo. Lidera a equipe. Decidem operar novamente. O problema é quando. Já se vão dez dias de UTI. O intestino não funciona. Às suas costas, dizem: não passa de 12 dias. Ele ouve. Sangra.

Ana fica sabendo que seu ex-marido, Carlos José Estragão, está com uma doença terminal. Volta para Fortaleza, vira enfermeira, mãe, cuidadora do homem que em um dia distante ela amou. Agora, solidariedade, amizade, o pai de seus filhos. Cuida. E o desamparo. Ao lado dos sentimentos em colisão, assiste a sua morte, lenta e dolorosa. Ao redor, anões e gnomos, personagens de seus romances. Desta vez, o luto é partido em família, compartilhado em dor de morte de pai, seus filhos estraçalhados. A memória de João, a memória de Carlos. Muito a sofrer. Muito a escrever, ainda. Lembra Hannah Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história.”

Domingo. A lentidão do domingo. Eles decidiram operar às 14h. Desta vez, ele vai junto, mãos dadas. Fica um bom tempo na sala de preparação com ela. Os enfermeiros reprovam, tiram-no dali. O olhar, o olhar, olhar! Vai para a antessala, onde estão os outros familiares. Não suporta. Desce para o carro, dá uma volta no quarteirão, para em frente ao hospital. Olhando o movimento da rua, chora, copiosamente. Suas filhas estão em casa, nada a fazer. Há dias não sente seu coração, não ouve o sangue. Volta, o frio, as trocas intensas, o medo, o suor, o sonho. A espera monta refúgio no fundo da alma. Nada a fazer. Longe do amor.

Ana conheceu Antônio bêbado. Muito. Passou ao largo. Ele insistiu. Mas no dia seguinte, sóbrio. Tornou-se o maior amor de sua vida. Amor tardio, sólido, equilibrado. Nunca mais bebeu. Ela sorveu as mágoas, as tristezas dos amores passados. Abriu-se. Ele tornou-se outro. Melhor: o amor incondicional na velhice. Ambos escrevem, agora, ele mais. As mortes, só lembranças. Os anões e outros personagens voltaram para o seu lugar, inconsciente. O sonho se tornou real. Ana e Antônio.

A imagem parada: na cadeira de rodas, o carro na porta do hospital, cinco amigas. Ela entra, amparada. Uma longa convalescência pela frente, ainda várias sequelas. Foram, ao total, seis cirurgias. O tempo parado no ponto infinito, em pausa. Histórias ainda por contar, por muitos anos. O sangue novamente flui, sonoro. O corredor se comprime, infinito, em espiral. Olha para ela, descansa, agradece. O amor tarda.

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