O duelo e seus acontecimentos, na Savassi

(Sobre a frase que não veio, depois de tanto tempo)

- Você será o juiz. Mande ele escolher as armas, disse Roberto, ao telefone, voz àspera, naquela manhã seca de agosto.

- Que conversa é esta? Tudo por causa daquela bobagem, na biblioteca? Foi só um relance, uma conversa à toa. Ele não queria bizorrar sua mulher.

- De forma alguma. Nós já conversamos, está acertado. Será no dia 30 de agosto, à meia noite, no quarteirão da Tomé de Souza, entre Getúlio Vargas e Rio Grande do Norte, na Savassi. As árvores e o Mandala fechado, como testemunhas. E você, como juiz. Manda ele escolher as armas.

- Desisti. Liguei para o França. Que leréia é esta, amigo? Duelo? Nesta altura do campeonato? Me poupe! E por mulher? Você fala como se tivesse precisando!

- Não se trata disso. É uma questão de honra. Mas não tem este negócio de armas. Vou é quebrar a cara dele, na mão mesmo.

Horas e horas, dias de trocas de telefonemas. Insultos, explicações, digressões, amor e ódio. Os dois escritores, grandes amigos, estavam ali, prontos para jogar fora uma amizade de anos e anos. Não sabia mais o que fazer para contemporizar.

- Pronto. Já que você não ajudou, nós escolhemos: garruchas, de um tiro só. Aquelas de cabo de osso. São perfeitas.

- Mas aonde vocês vão arranjar estas relíquias? Coisa mais demodê!

- Eu tenho um amigo colecionador. Será como antigamente. De costas, andando, dez passos, paramos. Você dá a ordem, a gente vira, e atira.

- Eu não vou dar ordem, eu não vou na Tomé de Souza, eu não vou estar lá! Vocês são malucos e se entendam! Tô fora.

- Vai sim. Em nome da nossa amizade, vai estar sim. E ponto final.

Conversar de louco, decidido, não podia faltar. Vou para ver eles se reconciliarem. São amigos e se admiram a vida inteira. Vou e faço eles se entenderem.

Dia 30 de agosto, quinze para meia noite, nós três no lusco-fusco da Tomé de Souza. As grandes árvores escondem os postes de luz. Silêncio bruto.

- Tá aqui a caixa com as armas. Confere.

- Vocês estão loucos, vamos conversar. Deixa disso…

- Esquece, deixa que eu confiro. Tá certo. Pega a sua, tá quase na hora. De costas, anda, sem papo furado.

Andaram. Eu mandei parar. Eles se viraram e atiraram. Não ouvi nada. Mas os dois caíram, atingidos, simultaneamente. Depois se levantaram e, em silêncio, foram embora. Eu fiquei ali, mudo, encantado. Anos depois, em uma noite, acordei com a notícia da morte do França, de acidente de carro. Muito tempo após, foi Roberto, de infarto.

Finalmente, ouvi o estampido dos tiros das garruchas. Entendi.

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